Ama e faze o que quiseres

(Por Maria Clara Lucchetti Bingemer)

Esta frase tão bela quanto desconcertante do grande Santo Agostinho, - alguém que entendia de amor, o humano e o divino nos motiva a refletir mais profundamente sobre o tema do amor, sobretudo às vésperas da data em que se comemora o Dia dos Namorados.

Apesar da data ter se tornado excessivamente comercial; apesar dos apelos da mídia que não tem pudor de usar qualquer recurso para incitar mais um dia ao consumo de bens descartáveis; apesar da palavra amor ter sido banalizada ao máximo nos últimos anos; apesar de tudo isso, há que se confessar que poucas coisas tão belas existem no mundo quanto o amor entre o homem e a mulher. O Dia dos namorados remete a essa realidade, do maravilhamento que desde a criação do mundo fez Adão exclamar, ao olhar para a recém-criada companheira Eva: “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!”

O pecado original tem feito grandes estragos nesse amor que por suas características nos faz únicos e semelhantes ao Criador. As relações amorosas se encontram cada dia mais efêmeras, mais descartáveis e mais egoístas. Busca-se o outro para ser feliz, entendendo-se felicidade como a saciedade de uma paixão passageira. Esta, por não ter raízes e ser extremamente volátil, breve se dirigirá a outro objeto, do qual igualmente se afastará quando vier, em curtíssimo prazo,

Deus, o Deus da revelação judaico-cristã se propõe a si mesmo como mistério de amor. Mistério que fascina e se converte em objeto de desejo mas que também salva, ou seja, plenifica e pode plenificar abundantemente a vida humana. .

Nesta relação assim instaurada entre Deus e o ser humano, o Eros divino se apresenta como mais forte que o ser humano, e se faz experimentar como sedução poderosa, irresistível e gratuita. Imperativa!.

Na caminhada do povo de Israel, a identidade mesma do povo é dada pelo imperativo de amar seu Deus. E amá-lo com todo o seu ser (de todo coração, de toda alma, com todas as forças). Este amor no entanto, desde o início, se apresenta como algo dinâmico e radical. Tira o povo e o ser humano de si mesmo e o atira de cheio na prática da justiça como instancia verificadora do amor de Deus.

Em suma, o amor a Deus segundo a revelação é o resumo da própria Lei de Deus. E o grande Santo Agostinho destacou o vínculo inseparável que há entre o amor e o imperativo ético: “ama e faze o que quiseres”.

O Senhor que diz : "Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado" ainda traz as mãos molhadas e a cintura cingida pelo ato amoroso humilde e despojado de haver limpado do pó da estrada os pés de seus caros e pobres amigos.

Todo amor que não estiver perpassado por essa radicalidade e essa disponibilidade ao serviço mais humilde e total não terá condições de conduzir à felicidade e à plenitude. Mas, pelo contrário, desembocará na morte e na frustração supremas de haver malogrado sua vocação mais íntima e profunda.

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Teóloga, Professora e Decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio


 
 
 
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