Livres criaturas

(Por Pe. Amauri Ferreira)

Diante dos nossos olhos uma borboleta revela a sua extraordinária beleza. Com exuberante leveza bate suas asas e voa. Seus movimentos, embalados pelo vento e banhados pelo sol, exaltam a liberdade. Seu itinerário, percorrido suavemente, é traçado pelas flores que, num gesto de cumplicidade, a esperam no caminho para oferecer-lhe alimento e repouso.

Não resistimos a tanto encantamento e somos despertados por um sórdido desejo: apropriar-nos daquele pequeno ser como se pudéssemos desvendar, na insensatez de seu cativeiro, o segredo do porquê não somos livres. Impelidos a deter a beleza em nossas mãos apertamos suas asas, examinando-a invejosamente. A borboleta assustada aguarda ansiosa a benevolência de seus algozes, esperando que a soltem para livremente voar. Enquanto isso, como dominadores, pensamos: matá-la não é a solução, o segredo morreria com ela; prendê-la não adiantaria, pousada ficaria impedindo a perversa investigação.

Por algum tempo, nós, escravos caçadores de seres livres, hesitamos em soltá-la. Decepcionados, no entanto, com a vã empreitada e percebendo que havíamos encarcerado apenas o corpinho frágil de uma borboleta e não a sua alegria, o bailar de suas asas, o seu amoroso encontro com as flores, a suavidade de seus movimentos, a essência de sua liberdade, abrimos as mãos e a deixamos partir. A borboleta, como que agradecida, alça voo, bate suas asas e procura docemente encontrar-se com suas flores amigas. Sim, amigas, porque na sua beleza e gratuidade, se oferecem tãosomente. Suas pétalas são tenras e não se fecham para prender, tolher, cercear movimentos. Não se prestam a deter o voo de quem não sabe ser e viver se não for para viver e ser livre. Flores! Belas flores! Tão livres quanto a borboleta. A identidade que as harmoniza não são as asas invejadas pelos homens, nem as raízes que se espalham sob o solo, generosamente umedecido pelas chuvas, extraindo a beleza de quem soube florescer. A identidade que possuem está na harmonização da criação, na grande comunhão dos diferentes que se completam e reciprocamente se abrem e se dão. Diferenças que sem qualquer desafeto ou desafino compõem a grande sinfonia do universo criado, amado e regido pelo seu autor: Deus.

Triste constatação a nossa: por incrível que pareça somos a nota dissonante a comprometer o esplendor da sinfonia. Isso porque nos julgamos centro, quando somos parte; entendemo-nos como senhores, quando somos apenas irmãos; desrespeitamos as diferenças, quando deveríamos agir como cooperadores da unidade na diversidade.

Deixemo-nos iluminar pelo Criador, para que possamos alcançar o discernimento necessário e compreendermos que fomos gerados para a Comunhão. Só seremos verdadeiramente livres quando todos nós, seres vivos, semelhantes ou não, pudermos conviver de forma pacífica, fraterna e amorosa; quando entendermos que somos todos parceiros e detentores do mesmo endereço, que ocupamos os espaços de uma mesma casa: o planeta azul; quando reconhecermos que não somos autores, mas, sim, corresponsáveis pela preservação da vida; quando tivermos a sensibilidade de perceber que todas as criaturas, assim como nós, se extasiam diante do sagrado direito de viver.

Quem sabe, então, tal como a borboleta e as flores, suas amigas, sentiremos a beleza e o sabor de ser e viver em liberdade.

Pe. Amauri Ferreira.

 


 
 
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