Existe um coração que nos faz absorver a aragem da ternura, como o respingar de uma fonte quando se arremessa sobre as pedras na busca de um leito para visitar os campos. D’Ele emerge Água Viva, para saciar nossa sede de amar. É como a chuva quando se debruça sobre o solo ressecado transformando-o num imenso e fértil canteiro. Nele se faz ouvir o ruído da palha acolhendo num corpo de menino a presença do divino, assim como a terra que abriga amorosamente a semente. Ele nos leva a ouvir, enternecidos, a voz que entoa uma canção de paz, tal como o cantar dos pássaros saudando o amanhecer.

Esse coração é sempre manso e humilde quando se revela, mas firme e exigente quando nos interpela. Lembra o tilintar dos sinos que nos convida à louvação. Seu interior é refúgio dos indefesos e nele se escondem os perseguidos do mundo e excluídos de outros corações. Sempre se faz como o entardecer à espera do sol para o descanso de cada dia. Sua imensa misericórdia sempre se oferece para aliviar nossas aflições, sofrimentos e dores e sensível para ouvir do povo os clamores. Sua expressão materna compreende as nossas quedas, se compadece com nosso pranto e nos devolve a esperança para enxugarmos as lágrimas.

Esse coração está sempre acordado e pronto a nos socorrer, serenando os ventos e acalmando as tempestades que ameaçam nos levar ao fundo. Como um guia nos conduz, na certeza de que, em sua companhia, vivos e sãos, faremos a nossa travessia. Os sentimentos que carrega desvelam a força do seu amor. Ao Senhor trata como “Paizinho” e por nós chama como “filhinhos”.

Esse coração solidário e identificado com os pequeninos se faz sentinela da justiça, nascedouro da partilha, farol que norteia, na escuridão das noites, o rumo da nossa embarcação pelos mares bravios da existência. Ele sabe e sente que não pode e não vai permitir que se perca um só filho que lhe foi confiado pelo Pai. Sua vontade é a de que todos tenham vida e a tenham em abundância. Por essa razão, demonstra sua repulsa ao orgulho e à cobiça, às desigualdades e hipocrisias, ao acúmulo e à desunião, aos preconceitos e exclusões que levam à morte. Tudo isso, sem deixar de acreditar que por trás da pessoa de cada pecador está um ser humano sob seus cuidados, pronto para levantar-se e segui-lo, apto a resgatar sua dignidade e ver-se livre das amarras que o escravizam.

Esse coração que sangra por amor, que assume a nossa dor, lá do alto de uma cruz, abandona-se nas mãos do Pai e proclama o perdão como supremo gesto de reconciliação entre o céu e a terra. E o madeiro, diferentemente da palha que o amparou, agora o tortura. O ruído se fez gemido, o gemido se fez ouvir e o coração parou. Parou?

Não! Esse coração não para porque a vida não se rende à morte. Esse coração ressuscitou! Esse coração é sagrado! Esse coração reluz! Esse coração continuará jorrando o inesgotável amor que o faz pulsar livre e generosamente. Tal como o amor que nos quer vivendo e dando sentido à nossa própria existência. Um amor ousado, capaz de nos fazer alçar um voo corajoso, contínuo e amoroso nas asas da liberdade. Um amor que se faz história, que nos remete à Glória e que só pode ser gestado no útero da Trindade.

Pe. Amauri Ferreira

 


 
 
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