Pura gratidão

(Por: Pe. Amauri Ferreira)

De mãos dadas com o tempo, como um carregador de lembranças que leva consigo retalhos de vida, ainda posso avistar os poucos degraus entre a pequena estrada de terra e a soleira da casa antiga onde moravam meus avós. Logo me vem à mente, o corpo cansado de um velho lenhador, nela sentado e por ela acolhido todas as tardes como companheira fiel.

Meu avô, com seus braços debruçados sobre o machado, contemplava o sol que lentamente se escondia entre os galhos de uma bela e vigorosa cerejeira. Com sua voz rouca e serena chamava pelos netos que logo o rodeavam para ouvir as histórias que contava e as experiências vividas dentro da mata espessa na qual se embrenhava todo o dia, desde o amanhecer. Todos ficávamos atentos e admirados com sua sabedoria. Falava de pássaros que nunca chegamos a ver, de árvores que sequer conhecíamos, de animais que nos causavam medo e de flores, que exibiam sua beleza, abrigadas em troncos frondosos. Muitas vezes, nos entreolhávamos, sorrindo, quando percebíamos os cochilos que se alternavam ao falar de sua labuta, de fatos passados, de pessoas para nós desconhecidas que viveram ao seu lado experiências marcantes em outras épocas e lugares por onde passou… A gostosa conversa era interrompida invariavelmente pelo meigo e solícito chamado de minha avó que, como um relógio de alta precisão, lembrava-o do banho, assim dizendo: “a janta está pronta, você não vem?”. Nessa hora, todos nós, seus netos, contornávamos a casa e, de mansinho, nos dirigíamos à cozinha e, com água na boca, expiávamos a cheirosa comida que havia sobre o fogão de lenha. Minha avó percebia a nossa precipitação e, com o olhar de poucos amigos, nos repreendia: “esperem por seu avô!”. Diante da reprimenda, comparávamos à eternidade o tempo em que ele permanecia no banho e reclamávamos de sua demora. Para aumentar ainda mais a nossa voracidade, ele, antes de chegar à cozinha, passando pela sala, ficava um tempo enorme tentando sintonizar o velho rádio em busca de algum noticiário. Sua chegada à mesa era, cotidianamente, motivo de festa. Minha avó começava a servir o que havia preparado. A comida era a de sempre: feijão, arroz, polenta frita e, numa caçarola, um ensopado de legumes com pedaços de carne ou linguiça defumadas, tiradas de um pequeno varal que existia sobre o fogão. Disputávamos esses pedaços como se concorrêssemos a um grande prêmio. Após o jantar, a esperada sobremesa que variava segundo a época dos legumes: doce de chuchu, doce de batata doce, doce de abóbora, doce de beterraba etc. Depois disso, enquanto a comida era guardada e os pratos e talheres lavados por minha avó, ele, passando a mão na cabeça de cada um de nós e voltando a mexer no rádio, dizia: “comida no papinho, pé no caminho”. Morávamos todos no mesmo terreno, a alguns metros de distância de uma casa para outra. Desobedientes como qualquer criança, ficávamos do lado de fora brincando ainda por muito tempo.

Esse ritual se deu por muitos anos e crescemos aprendendo que todos girávamos em torno de duas figuras belíssimas e inesquecíveis. Pacientes, generosos, sempre amáveis, mas também duros e exigentes quando necessário, formavam um elo absolutamente indispensável à preservação do núcleo familiar do qual éramos parte. Ele, vô Totonho, partiu para o outro lado do tempo aos noventa e seis anos e, ela, vó Dilina, logo depois, aos oitenta e seis anos de idade. Hoje, mais do que nunca, tenho a certeza da importância que tiveram em minha formação, em minha vida. Creio que meus irmãos e, também, meus primos possuem essa mesma consciência. Fizeram sempre o melhor que puderam, trabalharam muito não apenas para ajudar no sustento de todos, mas para que seu suor mostrasse a nobreza do próprio trabalho. Dedicaram o amor que tinham dentro de seus corações e na simplicidade revelaram muito da sabedoria do próprio viver. A pobreza e as enormes dificuldades que dela decorriam não impediram que testemunhassem a dignidade de uma vida vivida honestamente, com integridade, fé, ternura e amor, o que me faz lembrar Fernando Pessoa, quando afirma: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

Se dou este testemunho o faço em favor daqueles que têm consigo a graça da presença física de seus avós ou de outros familiares idosos dentro de suas casas, quem sabe, ainda bem por perto. Não desperdicem a bênção que representa saborear, mesmo que no contexto mais conturbado de nossos dias, a companhia, a experiência e a sabedoria daqueles que não possuíram diplomas, mas que concluíram com muito mérito e simplicidade a universidade da vida. Tenham tolerância com as limitações inerentes à própria idade. Afinal de contas, também nós envelheceremos e, com toda certeza, desejaremos ser amados, respeitados e compreendidos por aqueles que mais tarde partilharão da nossa história, mesmo pertencendo a uma geração diferente.

Que o nosso olhar esteja carinhosamente voltado, que o nosso coração esteja sempre aberto, que os nossos ouvidos estejam bem atentos, que o nosso afeto se faça suficientemente aguçado e a nossa sensibilidade infinitamente disposta a valorizar e a expressar toda a nossa gratidão, enquanto ainda caminham e partilham sua vida conosco nas estradas humanas.

O nosso carinho e as nossas orações a todos os avós lembrados, especialmente, neste mês de julho, mais precisamente no dia 26, quando a Igreja homenageia Sant’Ana e São Joaquim, pais de Nossa Senhora.

Padre Amauri Ferreira.

Paróquia Imaculada Conceição de Guararapes
Diocese de Araçatuba/SP

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"Pe Amauri, quanta ternura quanta sensibilidade no seu artigo. Você fez do tempo passado algo sempre presente em nossa memória. Parabéns. Abraços" - Suhaela Tuma

"Realmente só uma pessoa apaixonada pela natureza e pelos mistérios divinos poderia oferecer esta bela reflexão. Parabéns e um abraço" - Elza Eugênio Longue

"Padre Amauri, sua história me fez recordar dos momentos maravilhosos que passei ao lado dos meus avós. Hoje sei que estão felizes ao lado de Deus! Que Deus abençoe todos os que estão ao seu lado!" - Wellington Carvalho de Aquino

"Seu avô era um homem trabalhador" - Bruna Fávaro Preti - catequese

"Que lindo testemunho Pe Amauri.^Me fez lembrar momentos maravilhosos de minha vida. Que saudades de meus avós.Parabéns, que Deus o abençõe sempre. Um abraço!" - Roselaine Marchiori de Souza

"Impossível conter as lágrimas nos olhos. Enquanto lia, revivia o passado com meus avós na fazenda onde morávamos, e os causos contados por eles, que a maioria estão presentes em minha memória, Que saudades.... Muito lindo. Parabéns Pe. Amauri mais uma vez. Que dom maravilhoso. Um abraço" - Romilda

"Adorável e tocante artigo... Que saudade de meus queridos avós paternos!" - Calinin Dantas Caetano - Rubiácea/SP - via facebook

"Esse texto me faz recordar o nosso tempo de criança. Como era bom!...passeios com vó Aurora...íamos no sitio do vô Pedro... no córrego nascente de charrete... que delicia!... brincávamos com aboboras, bonecas de milho..,que saudade!...o tempo passa!.o fogão a lenha no tempo do frio... vó Elida fazendo pipoca com groselha(vermelha)...Bons tempos eram aqueles!... éramos felizes e não sabíamos... Pe. Amauri um grande abraço...." - Claudia Almeida Favaro

“Querido Pe Amauri, lendo o seu fantástico artigo, lembrei-me de meus avós, imigrantes vindos da Espanha. Cresci ouvindo histórias fantásticas contadas por eles: a travessia do Atlântico, a chegada no Brasil, as primeiras dificuldades, como por exemplo, o idioma,as comidas e o clima,o trabalho, como colonos, nas lavouras de café, e a compra de suas próprias terras. Hoje, já não os tenho, mas guardo no coração, os seus ensinamentos e o exemplo de garra e determinação. A propósito, adoro ler os seus artigos! Um grande abraço. Paz e Bem!”- Arlete Martins Silva Tossato – Birigui/SP

“Este artigo trouxe-me à memória o gosto de infância através da lembrança da melancia repartida precisamente em 08 fatias (éramos oito) , dos seis sapatos comprados uma vez ao ano do viajante que passava em casa. Hah...valores preciosos que não vemos mais hoje!!! Avós...quanto respeito tínhamos ,como eram sábios contadores de histórias da vida real...Saudades!!!” – Dora Leila Henrique

“Que Deus abençoe aos meus queridos avós, que assim como os avós de Pe. Amauri, me foram tão importantes, e ainda são, nos dias de hoje. Amo vovó Rosa, vovó Maria e vovô Pedro” – Eduardo de Souza Quintana

“Tive a oportunidade de conhecer e conviver apenas com minhas avós,pois ainda criança os meus avôs foram para junto de Deus, mas me sinto incluída neste texto, porque minha avó foi e continua sendo lá do céu minha mãezinha. Um beijo vó, interceda por todos. Amém”- Lucinha Teixeira

“Maravilhosa sua mensagem sobre os avós,se identifica muito com a minha vida também,o senhor é maravilhoso em saber transmitir a realidade vivida”- Neide Galhardo

“Parabéns Padre Amauri. Seu testemunho me fez voltar ao passado que tive nessa maravilhosa cidade de Guararapes onde nasci e cresci”- Edilson Pacheco – São José do Rio Preto/SP

 

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