Pode ser diferente

(Por Pe. Amauri Ferreira)

Um sentimento muito forte arrebatou seu coração naquela oportunidade. Você, comovido, se deixou guiar pela estrela e pôde, pela primeira vez, contemplar o presépio.

Renovado na esperança, com o coração alegre e impregnado de bons propósitos, prometeu a si mesmo inaugurar um novo tempo e assumir uma atitude diante da vida, bem diferente daquela que havia marcado seus dias até então. Na passagem do ano, sem qualquer constrangimento, proclamou a todos seu enorme desejo de recomeçar. Com invejável disposição de não incorrer nos mesmos erros que o levaram a um distanciamento tão grande de Deus e, consequentemente, das pessoas que sempre o cercaram, sentiu-se impelido a navegar em águas mais profundas e repletas de sentido. Nas primeiras semanas da viagem que se propôs a empreender, procurou manter-se fiel, inspirado nas palavras do Mestre que sempre o lembrava: “onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Mt 6,21). Com o passar dos dias, no entanto, os velhos problemas voltaram a desafiá-lo já que haviam sido apenas esquecidos por algum tempo e não enfrentados e superados. Você começou a duvidar de sua própria capacidade de perseverar e de cumprir as metas que havia estabelecido inicialmente. Como acontece a todos, em maior ou menor intensidade, outros obstáculos foram surgindo, se acumulando e, apesar da sua boa vontade, se transformaram em gigantescas borrascas, que acabaram por levar a pique sua frágil embarcação abarrotada de sonhos e boas intenções. Você não aguentou! Seus planos se afogaram e, com eles, você também sucumbiu. A frustração provocada pela mesmice, a sensação de fracasso e o sentimento de impotência diante de fatos inesperados persistiram em seu interior como fantasmas que sempre o assustaram e insistem em não abandoná-lo. Do Natal, restou apenas a lembrança de um belo evento litúrgico, celebrando o nascimento do Menino-Deus. No seu cotidiano, porém, não chegou a absorver a intensidade da luz, os encantos da Criança, a generosidade de um Deus que se fez e se faz solidário e presente em sua vida, até mesmo nos momentos em que você experimenta uma sensação de profundo abandono, tragado impiedosamente pela senhora solidão.

Não é difícil para mim, aquilatar o imenso e angustiante vazio que persiste em sua vida. Do mesmo modo, não é impossível identificar a causa que o fez submergir logo depois que partiu em busca de novos rumos, para dar um significado mais intenso à própria existência. Pense comigo: você desejou mudar, sentiu a necessidade de avançar em ‘águas mais profundas’ e, alimentado pelo espírito do Natal, procurou transformar radicalmente seu modo de ser. Pecou apenas ao pensar que era suficientemente forte para ser um navegante solitário. Quando a fúria dos ventos veio e as tempestades recorrentes ameaçaram abatê-lo, você não teve ao seu lado alguém com quem pudesse partilhar seus medos, para ajudá-lo a refletir sobre os caminhos que poderiam levá-lo a superar tantas adversidades. Acreditou tão somente em suas próprias forças e, como também aconteceu aos Apóstolos, pensou que o Menino já crescido estava dormindo em seu barco, alheio às dificuldades pelas quais passava e indiferente aos perigos que enfrentava. Desanimado, ignorou a Palavra, se afastou do Banquete Eucarístico, distanciou-se da Comunidade e já não mais sentia a importância da oração, nem a felicidade que se desvela na arte de conviver.

Não sei se por falta de coragem ou, até mesmo, de um pouco mais de despojamento, você chegou a disfarçar com pálidos sorrisos, diálogos banais e justificativas não plausíveis, os problemas que o consumiam, impedindo, assim, que sua família e seus amigos, mesmo os mais íntimos, pudessem socorrê-lo de alguma maneira. Não pense que outro, ao contrário de você, conseguiria tolerar o ímpeto das ondas que o fizeram cair. Se estivesse só diante de tal empreitada, qualquer um, com certeza, tombaria igualmente. Você não foi o primeiro, não será o último, nem o único a enfrentar, em vão, os mares da vida, desconhecendo a necessidade de ter ao lado mãos que se estendam; corações que se abram; mentes que ajudam a discernir; ombros que se ofereçam para amparar; ouvidos que estejam prontos para escutar; lábios que se disponham a confortar… Não fique imaginando que a frustrante experiência que viveu e que, hoje, o faz tão abatido tenha sido a última oportunidade que teve para transformar sua vida, colocando-a na rota da felicidade.

Se estiver disposto a recomeçar, pense que dentro de alguns dias estaremos celebrando, novamente, a chegada do Menino. Aliás, o tempo do advento deseja nos preparar para esse momento. Interpela-nos quanto à necessidade de permanecermos em constante vigília; de relativizarmos aspectos materiais que em nada contribuem para percebermos a paz que dEle emana; de aplainarmos as arestas que tantas vezes nos impedem de reconhecê-Lo; de experimentarmos a presença do Senhor da Vida que não nos quer como viajantes solitários, mas solidários.

A liturgia do Natal revela a extraordinária generosidade do Divino que assumiu a nossa humanidade, compreendendo as limitações inerentes à nossa condição; acolhendo, misericordiosamente, nossos equívocos; demonstrando sua imensa compaixão para conosco; desejando vida, muita vida para todos. Na verdade, exprimimos num só dia do ano aquilo que Ele deseja ardentemente a cada momento, o tempo todo: armar sua tenda entre nós e em nós, e renascer no coração daqueles que se deixam fecundar pelo seu divino amor.

Portanto, meu irmão, não tenha medo de assumir para si o que sugere o poeta: “vai, tente outra vez!… Tente e não diga que a vitória está perdida. Se é de batalhas que se vive a vida, tente outra vez!…”. Acrescento, apenas, à poesia, algo que considero imprescindível: não tente sozinho!… Se possível for, tente muitas vezes, tantas quantas forem necessárias, porém, partilhando suas dificuldades e alegrias, seus encontros e desencontros, suas angústias e vitórias com aqueles que caminham ao seu lado. Creia! Será bem mais fácil navegar, chegar ao outro lado da margem e bem menos penosa será a tarefa de enfrentar os mares revoltos da existência. Para isso, é bom não esquecermos da noite em que o Menino nasceu. O grande espetáculo da vida não acenou para a solidão, mas inspirou a mais plena comunhão. No estábulo, à Sagrada Família, aos Pastores que chegaram envolvidos em luz e, ao Anjo que lhes anunciara a Boa Notícia, juntou-se uma grande multidão de anjos. Todos cantavam louvores a Deus, dizendo: “glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por Ele amados…” (Lc 2,9-14). Desejo, meu querido irmão, que a luz do Espírito possa resgatá-lo do desânimo em que se encontra ainda hoje, fazendo-o pensar que desperdiçou as chances que teve ao longo do ano, que não tarda a nos deixar, partindo para os braços do passado. Vamos lá, meu amigo, tente outra vez! Quem sabe chegou o grande momento de realizar seu sonho maior, que não é diferente do sonho de muitos: fazer de seu coração o berço do Menino para que nele céus e terra se toquem, para que o humano e o divino se encontrem.

Pe. Amauri Ferreira.

 
 

"Pe. Amauri quando temos o prazer de ler textos como esse, cheios de sabedoria,luz,conforto,enfim é uma injeção de ânimo para nossa alma. Como é bom ter amigos como vc, que JESUS te abencõe hoje e sempre. Um santo e abençoado Natal!" Irani Gomes Augusto

"Querido amigo, suas palavras alimentam a nossa alma, tocam o nosso coração e renovam as nossas esperanças. Que o Menino Deus te abençoe! Agradeço muito seu apoio e carinho despendido à nossa família no momento que mais precisamos. Amamos muito você!" Cristina Grosso

"Inspirado pelo Menino Deus o senhor nos deixa repletos de alegria e esperanças de um dia melhor. Obrigada em nome da minha família e que essa Luz Divina o ilumine sempre!" - Afonsina M. da Conceição Dias

"Que linda mensagem, Pe Amauri. Que bom que existem pessoas iluminadas como você e que através de sua sabedoria nos traz textos tão lindos e que nos tocam o coração. Que o menino Jesus te ilumine sempre. Carinhos" - Lucilene Preti - Peru

"Padre Amauri, é um belo texto. Pode ser diferente, é só tentar. Muitas vezes agimos sem pensar no grande amor que CRISTO tem por nós. Que Jesus nasça em nossos corações. Crer que JESUS é o próprio Filho de Deus, o DEUS que está conosco. Que a luz do espírito nos resgate dos nossos vícios e nos mostre qual é o nosso verdadeiro SENHOR (MT 6, 19-24). Abraços!!!"- Maria de Lourdes Silva Cardoso - Rubiácea/SP.


 

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