Os valores e símbolos do Reino

(Por Pe. Amauri Ferreira)

Os grandes mestres da pintura e da escultura, que dignificaram a história da arte, ao longo dos séculos, procuraram exaltar a majestade de Jesus e a magnitude de seu Reino, comparando-as aos mais bem sucedidos reinos da terra. Buscaram estabelecer uma relação de semelhança entre os valores e símbolos utilizados em seus reinos com o Reino inaugurado e anunciado por Nosso Senhor. Não é incomum, portanto, estarmos diante de obras, frequentemente reproduzidas em pôsteres, revistas e catálogos fotográficos, em que Jesus vem retratado com as vestes próprias de um imperador e seus apóstolos vestidos com túnicas usadas pelos senadores romanos, assessores e conselheiros reais.

Aliás, não podemos perder de vista que 'os senhores do mundo' sempre procuraram manipular o 'sagrado' para legitimar e dar respaldo às suas ações opressoras acolhidas passivamente por seus súditos. Foi e continua sendo dessa forma que os poderosos conseguem impor seus interesses e popularizar seus ambiciosos projetos que têm por objetivo único a concentração de todo e qualquer poder em suas mãos.

Ainda hoje, em menor escala, presenciamos, de quando em quando, solenidades, festas, casamentos, reuniões palacianas que procuram preservar a ostentação e a luxúria, que têm como indumentárias tradicionais a coroa, o manto, o cetro e uma infinidade de ornamentos. Mentes ainda submersas no mar das vaidades, quem sabe à espera de gerações mais lúcidas que possam lançar as redes em águas mais profundas, conseguindo resgatá-las para a verdade que liberta. Ou, então, nos deparamos com os mesmos corações petrificados numa roupagem adequada ao nosso tempo, mas, em nada diferentes na capacidade de empregar suas forças e usar os meios mais sofisticados que dispõem para se manterem no poder. Perpetuam a dominação, mesmo que esta custe a vida de milhões de seres humanos que tombam em função da miséria, da guerra e da destruição dos recursos naturais que ameaçam a sobrevivência do próprio planeta. Enfim, as riquezas continuam sendo acumuladas pelos ‘imperadores’ de nosso tempo, à custa do empobrecimento que vai sendo, a cada dia, mais globalizado. Com seus discursos cínicos, apregoam a paz como ausência de guerras e não como convivência pacífica e harmoniosa, sedimentada na justiça, na igualdade e nos direitos fundamentais da pessoa humana. Em nada se assemelham ao Cristo-Rei, mas sentem-se tão importantes e até mais poderosos que o Filho Amado de Deus. Quando perfilados para fotos que tentam produzir um efeito ainda maior quanto à importância que julgam possuir, parecem também transfigurados pelos milhares de flashes que documentam suas reuniões sórdidas, suas decisões mórbidas. Estão sempre prontos para invadir, destruir e matar.

Jesus é um Rei diferente e o seu reinado está fundamentado em outros alicerces. Ele mesmo diz a Pilatos: “o meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36). Não porque não possa ser vivido dentro da nossa limitada condição humana. Jesus não está apontando para outro lugar, outros mundos. Está, tão somente, querendo nos fazer entender que os seus valores trazem uma nova e transformadora proposta. Na dinâmica do Novo Reino a missão do rei é libertar e não punir; salvar e não condenar; partilhar e não acumular; reintegrar e não excluir; amar e não submeter; servir e não ser servido; é dar a vida e não matá-la. Nessa perspectiva, os símbolos do Reino anunciado por Jesus também se diferenciam: seu castelo, um estábulo; seu berço real, uma manjedoura; seus ministros, pescadores, publicanos e pecadores; sua carruagem, um jumentinho; sua arma poderosa, o perdão; sua coroa, de espinhos; seu manto, tecido de afeto, ternura, acolhimento, amor; seu trono, a cruz; seu projeto de expansão territorial, a casa do Pai, a eternidade; sua proposta, não para os súditos, mas para os amigos, a vivência das bem-aventuranças; sua meta inegociável, que todos tenham vida e a tenham em abundância; sua orientação para os que desejam fazer parte do Reino, amem-se uns aos outros; sua exortação para os que ainda hesitam, só a verdade os libertará; sua fidelidade para aqueles que o querem como rei e senhor, estarei convosco todos os dias até o fim do mundo.

Apesar de conhecermos bem a diferença entre a proposta libertadora do Reino de Deus e as práticas que tornam cada vez mais satânicos os reinos que aí estão, existem, ainda, muitos indecisos. Por isso, na festa do Cristo Rei somos chamados a refletir: de que reino queremos fazer parte? Que rei desejamos seguir? Que projeto de reino pode conduzir a humanidade a um desfecho feliz? Aproveitemos o tempo do advento, que tem seu início logo após a solenidade da realeza de Cristo, para buscarmos uma conversão sincera e capaz de nos fazer preparados para acolher “aquele que vem em nome do Senhor”. Aproveitemos este momento privilegiado e integremo-nos ao verdadeiro espírito do Natal, para que amanhã não tenhamos que amargar a terrível frustração de reconhecer: “a luz verdadeira, aquela que ilumina todo homem, estava chegando ao mundo. Ela veio para sua casa, mas os seus não a receberam” (Jo 1,9.11).

Que o Cristo Rei faça jorrar suas bênçãos sobre todos vocês!


Pe. Amauri Ferreira

Paróquia Imaculada Conceição de Guararapes
Diocese de Araçatuba/SP

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