O segredo da unidade

(Por Pe. Amauri Ferreira)


Situações bem concretas, cotidianamente vividas por todos nós, evidenciam a incapacidade de discernirmos sentimentos puros e duradouros, de circunstâncias eventuais que nos colocam diante de pensamentos e posturas diferentes, ou, até mesmo, antagônicas. Com muita facilidade acabamos comprometendo vínculos profundamente alicerçados no ‘bem-querer’, na bela amizade que nutrimos pelas pessoas e na atitude não menos bela de reciprocidade que alimenta, quando legítima, nosso coração e nosso espírito. Temos dificuldades em admitir relações genuinamente fraternas que reconheçam o sagrado direito de manifestarmos, com inteira liberdade, aquilo que avaliamos não quanto a pessoa do outro, mas, sim, no que tange ao exercício de suas funções em momentos e conjunturas determinados. Sentimo-nos tentados a destruir algo tão valioso, por não percebermos que “todo ponto de vista é a vista de um ponto”. Agimos com a mesma ingenuidade de alguém que se sente impelido a demolir uma bela casa ao perceber que um de seus cômodos foi pintado num tom levemente diferente dos outros. Essa atitude nos leva a refletir sobre as sábias palavras de Voltaire, filósofo iluminista francês (1694-1778): "Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la".

O modo como vemos, julgamos e agimos, pode nos situar diante de diferentes compreensões e práticas sem, no entanto, colocarmos sob suspeita o respeito, a admiração e o afeto que nos unem. Pelo contrário, ampliamos os horizontes da existência e crescemos na sabedoria de vida, quando conseguimos transitar entre supostos conflitos, na certeza de que é no acolhimento da diversidade que temos a chance de banir a medíocre uniformidade que escraviza a tantos, para obtermos a verdadeira unidade. No capítulo quinze do livro dos Atos dos Apóstolos podemos constatar a grande crise enfrentada pelas comunidades cristãs de Jerusalém e Antioquia. A situação exigia um encontro de suas principais lideranças com o objetivo de superar tal conflito. Os cristãos provenientes do judaísmo (comunidade de Jerusalém) continuavam sob o jugo da observância da Lei. Queriam que os pagãos também colocassem em prática tais prescrições para que alcançassem a salvação. Em resumo, primeiro deveriam ser ‘judaizados’ e, depois, então, ‘cristianizados’ o que provocou um grande alvoroço entre os irmãos de Antioquia. Paulo, Barnabé e mais alguns, com a solidariedade de toda a comunidade, subiram a Jerusalém para tratar dessa questão com os Apóstolos e Anciãos. Depois dos depoimentos de Paulo e Barnabé, sobre o acolhimento da Boa-Nova entre os pagãos, uma longa discussão se estabeleceu. Ouvindo as ponderações de Pedro, que procurou sabiamente mediar o conflito, a ‘comunidade mãe’, liderada pelo Apóstolo Tiago, à luz do Espírito Santo, decidiu não impor sobre os fiéis de Antioquia fardo tão pesado. Apenas que procurassem abster-se de algumas práticas incompatíveis com a mensagem cristã. O conflito poderia ter gerado um impasse irremediável que acabaria pondo em risco a própria expansão do Anúncio, impedindo a criação de tantas outras comunidades cristãs, além de comprometer a sobrevivência daquelas já existentes. No entanto, a força do Espírito se fez presente naqueles que participaram do “Concílio de Jerusalém”; o diálogo fomentou e fortaleceu os laços fraternos entre as duas comunidades. O conflito não conseguiu prevalecer, mas, ao contrário, fez com que todos crescessem na fé, na esperança e na vivência do amor-comunhão.

Que belo testemunho nos proporciona o episódio contado com requintes de detalhes no Livro dos Atos! Essa experiência precisa ser assimilada por todos nós, homens e mulheres de boa vontade, dispostos a favorecer o bem comum e a cooperar com o projeto do Pai, inaugurado e anunciado na pessoa de seu Filho amado, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nossas eventuais divergências e diferenças não podem provocar um fechamento, muito menos um distanciamento. Tais posturas inviabilizariam, definitivamente, todos os esforços que apontam para a necessidade de procurarmos, juntos, sem quaisquer ressentimentos e radicalismos, soluções que se sobreponham aos nossos interesses pessoais, familiares ou coorporativos, para darmos a nossa parcela de contribuição em favor da dignidade e da vida para todos. Esse imperativo cristão é exortado por Paulo, quando diz: “cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para utilidade de todos” (1Cor 12,7).

Se alimentamos os mesmos ideais; se carregamos dentro de nós sentimentos de solidariedade e amor; se desejamos não nos ferir, ferindo também a muitos, estaremos conscientes de que não são os mais sinceros e leais aqueles que, interessados apenas em si mesmos e na defesa de seus privilégios, buscam evitar qualquer tipo de questionamento, mesmo que, para isso, tenham que conspirar contra a ‘verdade que liberta’. Esses servem pouco e concordam em tudo. Não mantêm laços de sincera amizade, mas, sim, ligações convenientes e, no tempo oportuno, receberão o salário do desprezo, como afirma o genial dramaturgo francês, Jules Renard (1864-1910): "acabamos sempre por desprezar os que compartilham as nossas opiniões com demasiada facilidade".

Verdadeiramente amigos, irrepreensivelmente leais, são aqueles que discordam, porque desejam o melhor para o outro; questionam, porque torcem para que o outro faça o melhor; interpelam, porque enxergam a importância do outro para muitos outros; opõem-se, às vezes, porque não conseguem conceber uma amizade senão a partir da verdade dos sentimentos que carregam dentro de si pelo outro; porque não veem no outro um adversário a ser combatido, mas um irmão a ser generosamente acolhido. Como define James Fredericks — escritor e PhD em estudos teológicos da Universidade de Loyola Marymount, Los Angeles: “grande parte da vitalidade de uma amizade reside no respeito pelas diferenças, não apenas em desfrutar das semelhanças”.

Portanto, não será tão difícil para todos nós aceitarmos as diferenças como ingredientes indispensáveis à construção de alicerces para uma sólida unidade. Precisamos acreditar nessa possibilidade. Afinal, como nos lembra o grande escritor e poeta português, Fernando Pessoa (1888-1935): "tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

Pe. Amauri Ferreira.
Paróquia Imaculada Conceição de Guararapes
Diocese de Araçatuba/SP

 

"Como diz Gandhi: "olho por olho, e o mundo acabará cego.."..a paz só será possível através da aceitação da diversidade...valeu Pe. Amauri..bjus" - Dora Leila Henrique

"Que texto maravilhoso para refletirmos. O que seria de nós sem um verdadeiro amigo! Que Deus nos abençoe sempre" - Carmem Stringhetta.

"Amauri, neste forte texto, você relata o que tu és: amigo fiel, aquele que prova, com suas atitudes o seu amor ao outro. Eu pude sentir e viver isso em um dos momentos mais sofridos de minha vida: a perda de meu pai. Por isso, ao ler cada parágrafo deste texto pude recordar aqueles terríveis dias. Neles pude contar com a sua amizade, sua coragem, se colocando ao nosso lado mesmo sabendo que não era fácil. Ficou conosco até o fim. Sou e serei eternamente agradecida a Deus pela sua amizade. Pois você é amigo, é verdadeiro, é aquele que não nos poupa quando precisamos enxergar a realidade. Você nos mostra os degraus para alcançarmos a grande vitória da vida, Nosso Senhor Jesus Cristo. Muito obrigada, amigo, por tudo, principalmente por me evangelizar." - Cristina Antonello

"Oportuna reflexão do nosso amigo Amauri. Matéria obrigatória a ser estuda e refletida por todos nós, no tocante individual, em grupo pelas pastorais e movimentos, para que jamais percamos de vista o propósito maior de nossa vida: O Reino de Deus! Deus continue abençoando e iluminando nosso Amauri, que através de seus artigos, nos remete sempre a uma profunda reflexão do nosso cotidiano e nossa postura cristã. Paz e Bem!" - Mendes - Pascom Diocesana

"Realmente, o que seria de nós sem um ombro amigo. Verdadeiro amigo é aquele sincero independente se a realidade nos machuca e se não vai satisfazer nosso ego.Parabéns pela mensagem" - Romilda

"Pe Amauri, quanta sabedoria neste texto, se todas as pessoas usassem de sinceridade e de caridade no trato com os irmãos o mundo seria outro. Para ser amigo não é preciso concordar com tudo somemente para agradar, temos que ser sinceros, honestos e muito verdadeiros para que seja realmente sólido esse afeto, muitas vezes nos descaracterizamos para agradar alguém, e isso torna o relacionamento fragil e superficial, temos que ser nós mesmos principalmente quando admiramos o outro, e falar e agir como realmente manda nosso coração e nossa razão, e principalmente aceitar as diferenças de opiniões de pensamentos e preferencias, ninguém é infalível para julgar o outro, e nem dono da verdade. Que esse texto possa bater fundo em todos que o lerem e que sirva de reflexão para a semana. Mais uma vez obrigada pela lição de vida" - Maria Cristina Grosso e Maria Helena

"Uma verdade, que muitos não querem escutar. Excelente mensagem, se todos os cristãos fossem abertos ao verdadeiro amor (ágape)talvez a vida não se tornaria tão difícil quanto é. Abraços e a Paz de Cristo esteja sempre contigo". - Agenor Celso de Paula - Brasília/DF

"Sábias palavras, pois devemos nos unir sempre, para uma verdadeira amizade, pois existe espaço para todos sem usar seus amigos como escada, e sim compartilhar de suas vitórias e derrotas. A verdadeira amizade consiste na união, de um dar a mão para o outro sem esperar retorno pois o melhor retorno vem de DEUS." - Valdirene Teixeira

"Parabéns! Pe. Amauri o senhor não imagina o quanto ajuda ler mensagens como esta em terras distantes. Continue sendo esta presença na cidade, no Brasil e no mundo, através dos meios de comunicação. Um grande abraço" - Irmã Lina. (Orionita) - Buritis/RO

"Esse texto nos leva a fazer uma reciclagem de nossas ações e conduta"- Altair Pereira Neves

"Como é bom poder ler e refletir estas palavras. Pe. Amauri, são belas e muito educativas. Parabéns!" - Walter Pedro dos Anjos


 

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