Eucaristia: ceia de amor e de vida

(Por: Padre Luiz Antonio Miranda)

Pretendo, nesta curta meditação, "sondar" aquilo que nasceu para nós cristãos da última ceia do Senhor com os Doze. Como sacerdote que celebra constantemente a Eucaristia, desejo apresentar ao leitor especialmente a nossa ceia eucarística, que é ceia de vida e de amor.

No momento em que a vida de Jesus chegava ao seu fim aqui na terra, alguns dias antes de sua prisão, dos seus sofrimentos e de sua morte, vemo-lo perante os Doze, preocupado em ressaltar aquilo que, de todo o seu ensinamento, devia ser retido em primeiríssimo lugar, o que era essencial. Um só mandamento resumiria e englobaria todos os outros: "Amai-vos uns aos outros" (Jo 15,12). Foi a ordem suprema que Jesus quis deixar; e, para corresponder a ela, deu-nos um sinal supremo. Esse gesto, esse sinal, foi cumprido durante a última ceia, sendo antes de tudo um gesto de amor. De um lado, pois, uma palavra que explica e que despede; do outro, um sinal, um gesto que marca e preenche. A ceia já era uma refeição de amizade entre aqueles homens que não eram simplesmente amigos ocasionais, mas sim companheiros de um grupo bem unido, que convivia já há três anos. Na ceia, porém, há mais do que isso. Os que ouviram Jesus predizer várias vezes sua Paixão agora pressentiam de modo confuso que essa ceia seria uma das últimas, senão a última partilhada com o Mestre. Tratava-se, aliás, da ceia da Páscoa, refeição solene, com uma maior significação espiritual em relação às outras. Jesus, sabendo que aquela refeição seria a última, acentuou seu desejo pelo encontro, ao qual queria dar e deu de fato uma marca excepcional: "Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco" (Lc 22,15). Objetivamente, Jesus transformaria aquela última ceia não apenas numa ceia de amizade, como todos as precedentes, mas numa ceia de amizade e de amor, um verdadeiro Sacramento.

Diz o evangelista São João: "Tendo amado os seus, amou-os até o fim" (Jo 13,1). Sim, até o fim, e não até o final, o que significaria apenas uma indicação de tempo. Até o fim, em outras palavras, quer dizer extremo do amor! Esse extremo do amor foi precisamente a instituição da Eucaristia. Jesus marca aquela ceia com um sinal característico para nos fazer compreender que ela é doravante o lugar privilegiado de nosso encontro de amor entre nós e com ele. Como? Introduzindo sua própria morte como sinal de amor ("Não há amor maior que dar sua vida aos que se ama") nesse outro sinal de amor, que é a reunião para uma ceia... Ele o fez através daquela ceia pascal que partilhou com os Doze e à qual deu dimensão radicalmente nova. Na ceia pascal, típica do povo judeu, justamente por ser em honra à libertação dos judeus da escravidão do e no Egito, comia-se um cordeiro; para os israelitas (judeus) esse cordeiro, cujo sangue substituíra o seu nas portas egípcias, era o sinal de sua libertação e de sua vitória. Na nova ceia instituída, Jesus anunciou e celebrou uma outra libertação, obtida por seu próprio sangue, ela também relacionada a um alimento que não era mais um cordeiro, uma vez que Ele próprio se transformava no "Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo" (Jo 1,29). Isto prefigurou sua Paixão e Morte na Cruz. Em seguida, um outro sinal foi dado, não mais do cordeiro, mas o do Pão e do Vinho, doravante colocados no centro do gesto renovado, que é o Sacramento do Amor por excelência.

O Corpo de Cristo é um sacrifício e um alimento; é também o cimento de uma união. Na eucaristia, na santa missa, com efeito, nós temos o privilégio de sermos nutridos do e com o Corpo de Cristo, para nos tornarmos o Corpo de Cristo que é também a sua Igreja. De fato, o sacerdote reza na eucaristia: "Humildemente vos pedimos que, ao fazer parte do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, sejamos unidos pelo Espírito Santo num só corpo".

Enquanto Jeus diz: "Não há maior amor que dar a vida a quem se ama" (Jo 15,13), nós podemos dizer com alegria e com amor: não há maior ceia de amor do que exatamente aquela em que essa vida de Jesus é dada, dada em abundância, dada em sacrifício perfeito, dada como alimento para se tornar o lugar e o fermento de nossa união entre nós e com Ele, transformando-nos profundamente em seres de uma Vida Nova, pois a ceia do Senhor é uma ceia para viver intensamente; não se trata de uma refeição como as outras que nos dão alimento que "se acaba", mas sim de uma ceia de restauração que conduz a uma vida sem fim, pois "aquele que come este pão viverá eternamente" (Jo 6,58).

Eis o que percebemos misteriosamente na fé: a eucaristia nos foi ofe- recida como uma ceia de amor que nos dá Vida Nova. Nossa missa em cada domingo, portanto, não tem sentido se não for mais que um rito sem amor, se não nos vincular ao amor de Jesus Cristo e ao amor ao próximo, pois a eucaristia é e deve ser ceia de amor e de vida.

A eucaristia e os outros sacramentos do Corpo de Cristo, sua Igreja, não nos são dados somente para que nos salvemos, mas para que nos transformemos em "salvadores", unidos ao Salvador; assim sendo, transformados pelo amor de Jesus Cristo, tudo o que puder tornar os homens solidários deve mobilizar-nos incessantemente. Os sacramentos da Igreja, especialmente a eucaristia, são o encontro constante com o Mestre, e esse encontro leva-nos necessariamente a amar o nosso próximo à maneira do Cristo Ressuscitado, que nos transforma se nos deixarmos conduzir pela Lei do Amor. Feliz Páscoa!!!

Padre Luiz Antonio Miranda
Beromünster, Suíça

Clique aqui e leia outros artigos
 

"Achei esta reflexão ótima, pois, valorizar jESUS e participar de sua Ceia é maravilhoso. Temos que ter consciência de que Jesus está no nosso próximo" - Lucinha Almeida Teixeira

"Belo texto! Nos ajuda muito na reflexão deste tempo. Que possamos realmente nesta Páscoa nos comprometer,com o Cristo Ressusitado; sermos portadores e promotores da sua ressureição; sermos cada vez mais dignos de participarmos da sua Ceia; viver O AMOR e a partillha. Só assim seremos dígnos de fazermos parte de sua mesa e do seu reino, que para nós foi prometido. Uma feliz e santa Páscoa para todos" - Cristina Antonello

"Adorável reflexão para captarmos um pouco da essência desse primordial sacramento! Parabéns ao site!" - Helen Bernardes

 

 
 
 
  Site Map