Esperança renovada, compromisso redobrado

(Por Pe. Amauri Ferreira)

Evidentemente, todos nós desejamos e pedimos a Deus para que nos abençoe e nos proteja sempre. Quando nos aproximamos do Natal e dos dias que antecedem a passagem do ano, essas orações e preces se fortalecem, se multiplicam.

É claro que essa esperança por dias melhores é legítima e expressa sentimentos que têm como fonte corações sensíveis e profundamente sintonizados com a força do amor que emana da Manjedoura. Afinal, em suas palhas o Divino deitou raízes na história e assumiu a nossa humanidade.

No entanto, a dura realidade cotidiana parece resistir ao poder da Luz e não se rende tão facilmente aos encantos do Presépio e à mensagem nele contida: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”. Tomada pelo pânico e perplexidade, grande parte da população se sente impotente e presa fácil de tantos atos bárbaros que vêm assustando a todos. Muitas faces revelam, a todo instante, o sofrimento e a dor daqueles que sucumbem diante de um incessante estado de insegurança instalado na grande maioria das cidades brasileiras e, lamentavelmente, também nas pequenas e pacatas cidades do interior do país.

Nessa perspectiva, sentimo-nos aterrorizados, sobretudo, com a quantidade enorme de menores envolvidos com a prática de delitos, inclusive nos de maior potencial ofensivo. Sabemos que as políticas públicas implementadas são, na maioria das vezes, muito tímidas e isoladas entre si, quanto à prevenção e ao combate à violência; entendemos que a legislação ainda se faz muito condescendente em relação à punição daqueles que se escondem por trás de “laranjas”, para colocar em prática seus lucrativos e perversos negócios; reconhecemos que a situação social, marcada por enormes desigualdades, aliada aos desvios éticos de conduta e à corrupção em todas as esferas de Poder, escandaliza e estremece a Nação, e também colabora com o crescimento quantitativo de atos inaceitáveis e profundamente cruéis; estamos conscientes de que também uma parcela dos meios de comunicação estimula em sua programação conteúdos com alto teor de agressividade e, ainda, banaliza valores e sentimentos que deveriam ser cultivados e não descaracterizados; identificamos no tráfico e no uso de diversos tipos de drogas o desencadeamento de uma insustentável situação que agrega ao seu poder avassalador, práticas hediondas, que conduzem ao abismo e à morte, especialmente jovens, adolescentes e, até mesmo, crianças...

De fato, são muitas as causas que nos levam a viver amedrontados diante dessa cultura de morte, que, por vezes, nos levam a pensar na irreversibilidade desse processo. Nesse aspecto, não podemos isentar de responsabilidade a atuação daqueles que administram os poderes constituídos. Esses, através das instituições que representam, têm o dever de criar alternativas e tomar medidas para acabar ou no mínimo minimizar essa dramática situação a que toda a sociedade está sujeita.

No entanto, não podemos ignorar e precisamos enfatizar que a desagregação familiar é uma das principais causas que levam a juventude a renunciar ao direito de lutar por belos caminhos para sua vida, se deixando levar por atalhos obscuros que vão fatalmente levá-la à delinquência. A família está na raiz da grande maioria dos desvios comportamentais apresentados por menores, desde muito cedo. Sabemos que essa desestruturação decorre de motivos diversos e cada um deles deve ser refletido exaustivamente. Não podemos, de forma alguma, sair atirando a primeira pedra. Entretanto, alguns desses fatores podem ser comprovados facilmente no diálogo que estabelecemos e no acompanhamento de adolescentes e jovens que já apresentam tais problemas. A porcentagem daqueles que são levados ao descaminho que tem como fonte o ambiente familiar desfavorável é enorme, em razão da imaturidade que leva inúmeros jovens e adultos a constituir aquilo que nunca deveria ser chamado de um lar; a irresponsabilidade daqueles, não importa o extrato social a que pertençam, que sabem “colocar filhos no mundo”, mas não têm a consciência ou a dignidade de educá-los e dar-lhes o suporte humano-afetivo para um crescimento saudável; a total indiferença pela formação dos filhos alicerçada em princípios éticos básicos, que garantam uma crescente capacidade de discernimento e, consequentemente, uma opção pela busca de um sentido mais profundo para suas vidas; a permissividade com que, hoje, para suprir a falta de diálogo e de uma presença maior na vida dos filhos, faz com que já não exista mais controle em relação aos lugares, às companhias e horários, que há muito já deixaram de ser sugeridos, acertados e conhecidos pelos pais; o equívoco de pensar que um pai ou uma mãe modernos nunca devem dizer “não”, sem conceber a idéia de que um não, dito no momento certo, é uma das formas mais eficazes de amar; a insensibilidade de não perceber que o amor verdadeiro exige também limites que devem ser acompanhados do esclarecimento necessário à compreensão de quem ainda não tem a personalidade formada para tomar decisões por si só; os ambientes promíscuos que, por vezes, se escondem por trás das próprias paredes de uma casa, mas que não fogem ao olhar e à percepção da criança ou do adolescente que nela vivem; as separações traumáticas em que os casais, muitas vezes, se utilizam dos filhos para mútua agressão; a falta de uma espiritualidade que sustente a valorização da presença de Deus e os caminhos por Ele desejados para a realização do ser humano, seja qual for a confissão religiosa a que pertença... Todos esses são fatores decisivos para que crianças, adolescentes e jovens não sejam infelizes ou tenham ceifadas suas vidas tão precocemente. Ou, ainda mais, que não interrompam, estupidamente, a vida de pessoas inocentes e façam sofrer tantas famílias que, da noite para o dia, são condenadas à infelicidade e à dor, com a perda de seus entes mais queridos.

Sabemos que a tarefa de devolver ao ser humano as condições necessárias para uma vida saudável não é das mais fáceis. Para isso, precisamos estar unidos e organizados, independentemente de aspectos doutrinais, colorações partidárias, interesses corporativos e vaidades pessoais. Entidades governamentais, instituições particulares, associações, grupos, igrejas, autoridades de todos os níveis, educadores, homens e mulheres sensíveis e solidários com essa causa, devem colocar os instrumentos que possuem à disposição de um grande mutirão para pôr fim a essa face extremamente cruel da miséria. Ou nos unimos todos e trabalhamos juntos para, pelo menos, minimizar a realidade violenta na qual estamos inseridos, ou todos ficaremos expostos e teremos, amanhã ou depois, quem sabe, o dissabor de fazermos parte de uma estarrecedora estatística: aquela que revela a quantidade enorme de vítimas da violência. Quanto aos aspectos preventivos, podemos certamente agir muito mais no sentido de evitar que outras crianças e jovens enveredem por esse caminho e destruam seus sonhos, suas vidas. Para isso, precisamos atuar em todas as frentes para preservar a dignidade da pessoa, valorizar a família como instituição primordial para que tenhamos, amanhã, gerações mais felizes e um futuro, que delas depende, com horizontes mais claros e favoráveis a uma convivência harmoniosa e fraterna, em que exista espaço para o florescimento de uma verdadeira cultura da vida.

Se desejamos um novo ano mais feliz e promissor, vamos ter que trabalhar arduamente para que cada um de seus dias seja bem diferente daqueles que vivemos no ano que está por terminar. Com muita esperança e espírito de caridade, que jamais devem abandonar a reflexão e a ação dos verdadeiros cristãos, corajosamente, enfrentemos tal situação, como cidadãos comprometidos com o bem-estar de toda a coletividade.

Que a Sagrada Família interceda e inspire todas as nossas famílias, para que, em nenhuma delas, falte o diálogo, a compreensão, o afeto, a ternura, a misericórdia, a presença amorosa daqueles que as constituem. Enfim, que não falte o amor e a maturidade necessários para que não tenhamos que lamentar mais tarde as nossas muitas ausências e omissões, que infelizmente comprometem as relações e impedem a manifestação dos mais puros e sagrados sentimentos.

Pe. Amauri Ferreira

Paróquia Imaculada Conceição de Guararapes
Diocese de Araçatuba/SP

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"- Caríssimo Pe Amauri,quão sábias são as suas palavras. Realmente,entristece-nos este quadro desolador tão bem descrito em seu artigo. Porém, percebo em suas palavras não só um alerta, mas um sutil chamado para a ação. Oxalá,tivessemos a coragem de sair do comodismo e partirmos para o concreto. Na verdade,esta é a postura condizente com o triste cenário. Que o nascimento do Menino Jesus, que já se aproxima,transforme os nossos corações e, cheios de coragem e esperança realizemos o Reino de Deus aqui e agora.Aproveito a oportunidade para desejar aos amados amigos da Pascom e ao Pe Amauri, a quem tenho profunda admiração, votos de feliz Natal e um Ano Novo recheado de paz, saúde e felicidade. Um abraço fraterno, Paz e Bem!" - Arlete Martins Silva Tossato - Birigui/SP

"Parabéns padre Amauri por mais esse lindo artigo, muito forte e verdadeiro. Peçamos à Sagrada Família que proteja e guarde as nossas famílias de todo o mal que possa as atingir. Que cada um possa fazer a sua parte para que o ano novo seja diferente desse que se acaba, com as famílias unidas, com pais presentes e filhos felizes" - Maria Luiza Orpinelli

"Numa época onde músicas natalinas, muitas cores e luzes tendem a nos desorientar das reais necessidades humanas, temos este texto nos repreendendo, nos direcionando a atenção. Parabéns e obrigado pelo alerta de sempre. Que Deus nos ilumine, a todos." - Eduardo Quintana

"Quanta verdade, padre Amauri. Vou aproveitar este belo artigo para trabalhar em reunião com os pais. Os problemas das famílias atingem diretamente a escola. Beijo. Saudades..." - Cristina Grosso

"Parabéns pelo texto. Como sempre tocando em nossos corações!!!!!!" - Eliete Souza - Petrópolis/RJ - via facebook

"Pe Amauri, todos nós temos a mesma preocupação e opinião do senhor, principalmente nós da Pastoral da Família, que temos procurado orientar e sensibilizar as famílias a esse respeito, mas sabemos também que somos uma voz que clama no deserto, mas essa voz apesar de não alcançar a todos quanto gostaríamos, pelo menos têm o alcance que abrange a nossa comunidade. Se todos procurassem fazer o mesmo o mundo seria outro. Como sempre o senhor tem palavras sábias, pena que também não tenha o alcance desejado por nós. Mas continuemos fazendo a nossa parte, que um dia chegaremos lá se Deus nos ajudar. Parabéns querido amigo." - Maria Helena e Cristina

"Caro amigo e irmão Pe. Amauri, mais uma vez o senhor nos transmite sábias palavras, e nos faz refletir assunto importante de nosso cotidiano, que encontra-se nos lares de muitas famílias. Peço a Deus, que leve aos corações das pessoas a compreensão e a sabedoria para conduzirem seus filhos de maneira mais precisa. Que diante de um 'NÃO' dos pais ou responsaveis os jovens, possam refletir e entenderem que não é implicâncias, mas sim experiência adquirida no decorrer dos anos. Que os pais possam educar seus filhos transmitindo a eles muita fé em Deus. Padre Amauri, que Deus continue iluminando a cada dia mais o senhor, para que possa nos ensinar muito com suas palavras. Um forte abraço!" - Paulo Júnior
 

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