Acolher

(Por: Pe. Amauri Ferreira)

Não devemos excluir ninguém!... Não podemos ser preconceituosos!... Precisamos respeitar e conviver com a diversidade!... Assim como fomos bem acolhidos, devemos, também, saber acolher!... Não se faz distinção entre pessoas!... Todos nós somos iguais diante de Deus!...

Afirmações como essas, somadas a tantas outras, habitam os discursos, serenos ou inflamados, de todos os segmentos de nossa sociedade. Sabemos que não são poucos aqueles que, imbuídos de um espírito verdadeiramente cristão, primam pela coerência, buscando vivenciar no dia a dia aquilo que acreditam e pregam. No entanto, uma porção significativa de pessoas demonstra uma nefasta contradição entre o que diz e a forma como age. Essa triste realidade também se faz presente, muitas vezes, dentro da própria comunidade eclesial, através da postura de uma pequena parcela que se torna motivo de escândalo e não de testemunho da verdadeira comunhão. Por essa razão, precisamos, frequentemente, promover de maneira pessoal e comunitária um exame de consciência que nos permita, à luz dos Evangelhos, refletir sobre as interpelações que nos são feitas pelo próprio Jesus. Basta procurarmos compreender o que Nosso Senhor deseja ao afirmar: “eu era estrangeiro e vocês não me receberam em casa...” (Mt 25,43). Se recaísse sobre nós, hoje, tão severa acusação, surpresos não perguntaríamos também: “Senhor, quando foi que te vimos como estrangeiro?” (Mt 25,44). Certamente, com olhar entristecido, Ele nos diria: há mais de dois mil anos venho insistindo: “todas as vezes que não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram” (Mt 25,45). Se ao lado dos que sentem fome, dos que têm sede, dos que não têm o que vestir, dos que estão doentes ou encarcerados, o não acolhimento de um estrangeiro, ou seja, de um peregrino vindo de terras distantes, for um dos critérios para nossa salvação, então precisamos, urgentemente, mudar nossas atitudes. Um bom exemplo dessa necessidade é a relação que estabelecemos com aqueles que passam boa parte do ano buscando em diversas regiões do país, em especial do interior paulista, o sustento de suas famílias, alimentando o desejo de uma vida melhor para si e para os seus: os trabalhadores sazonais, sobretudo os irmãos e irmãs cortadores de cana.

Vindos, em grande parte, dos estados nordestinos e do norte de Minas Gerais, entregam-se a uma árdua jornada que, muitas vezes, extrapola a própria capacidade física para suportá-la. Acostumados a uma vida sofrida e ao serviço pesado, encharcam a terra com seu suor. Não raras vezes, em muitas cidades, como podemos constatar em reportagens exibidas pelas diversas mídias, se deparam com a ganância daqueles que impõem, sem qualquer escrúpulo, condições de trabalho degradantes. Dentre as mais recorrentes, a precariedade dos alojamentos, o não pagamento dos salários previamente combinados, o transporte irregular, o não fornecimento dos equipamentos de segurança, descontos indevidos... Quantas imagens constrangedoras acompanhamos através dos noticiários de homens e mulheres que, ao serem entrevistados, choravam copiosamente, reclamando seus direitos ou mesmo manifestando o desejo de conseguirem apenas o necessário para as despesas de retorno aos seus estados de origem. Todas essas situações que violam a dignidade humana não esgotam, porém, a situação dramática vivida pelos que trabalham no corte da cana.

Imagine você, pai ou mãe, que tem seu filho ou sua filha estudando ou trabalhando em outras cidades e estados... Quantas vezes, com lágrimas nos olhos, não suplicaram a Deus que os fizessem encontrar pessoas generosas e acolhedoras para que não ficassem reféns da solidão ou, quem sabe, dos descaminhos da vida? Quantas vezes não choraram em silêncio sentindo sua falta e, preocupados com a distância e ausência de notícias, foram tomados por grande apreensão, sem contar a imensa saudade que sempre sentiram? Imagine, também, o quanto seus filhos sofreram, ao terem de enfrentar, por si mesmos, dificuldades de adaptação, sempre tomados pela ansiedade do retorno à casa, para rever familiares, estar novamente com amigos, enfim, voltar à terra onde nasceram e sempre viveram.

Imagine também que, como seu filho ou filha, milhares de jovens e adultos deixaram igualmente apreensivos, preocupados e cheios de saudade, não apenas, seus pais, seus irmãos, seus amigos, mas, muitos deles, suas esposas e filhos, chorando e rezando para que estivessem bem e contando os dias, horas e minutos, para revê-los e com eles conviver, pelo menos por três ou quatro meses até o começo da safra seguinte. Em algum momento, você já se colocou no lugar desses homens e mulheres que, além do sol escaldante em seus corpos cansados, com frequência experimentaram a fragilidade de se verem, em meio a tantos outros, também sozinhos, carentes da presença dos seus, muitas vezes acuados diante de um tratamento frio, de olhares indiferentes, por vezes impregnados de preconceito ou desconfiança?

Alguém poderá discordar do que falamos, mencionando alguns incidentes isolados como pretexto para justificar ou, quem sabe, legitimar um tratamento que não condiz com os preceitos evangélicos. Tal alegação, desprovida de qualquer procedência, nos remete a um outro questionamento: será humano e cristão julgarmos e sentenciarmos a todos pelos desatinos cometidos por um ou dois? Será que alguns jovens e até mesmo adultos nascidos e criados em nosso meio não foram também protagonistas de incidentes reprováveis?

Com toda certeza, qualquer tipo de exclusão ou ausência de uma acolhida mais generosa em relação a esses trabalhadores nos faz incorrer na abominável conduta que impossibilita um encontro muito especial com o próprio Cristo: “eu era estrangeiro e vocês não me receberam em casa... todas as vezes que não fizerem isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram”. Precisamos reconhecer na pessoa de cada um desses irmãos e irmãs migrantes a presença viva e verdadeira do Cristo, muitas vezes, ainda crucificado.

Muitas safras já se passaram desde que nos entendemos por gente. Com elas uma infinidade de pessoas cruzaram de alguma forma conosco: no próprio canavial, nas ruas, nos bairros, em alojamentos vizinhos às nossas casas, no comércio, na Igreja… Guardamos as suas fisionomias? Lembramos de suas vozes? Memorizamos os seus nomes? Participamos de suas sagas? Tornamo-nos conhecidos por eles? Procuramos conhecer pelo menos um pouquinho da história de alguns, de seus dramas, de suas esperanças, de seus sonhos?

A safra deste ano, em algumas regiões, já teve seu início. Com ela teremos uma nova oportunidade de exercitarmos a hospitalidade como preceito bíblico indispensável para experienciarmos, de fato, a presença salvífica de Deus. O mesmo Deus de Abraão, de Moisés, de Jesus, o nosso Deus, que ama a todos sem distinção e nos quer, como filhos e filhas, vivendo e convivendo fraternalmente. Afinal, independentemente da classe social na qual estamos inseridos, das funções que desempenhamos, do credo que professamos, da raça a qual pertencemos, do lugar de onde viemos, do local onde nascemos e da comunidade da qual somos parte, todos somos estrangeiros. Sim, porque não somos cidadãos do mundo, da terra onde pisamos, muito menos senhores do chão do qual tiramos nosso sustento. Somos todos migrantes, peregrinos. Estamos apenas de passagem e a implacável ação do tempo nos mostra que não há razão para pensarmos que somos melhores ou piores que outros. Somos apenas viajantes, cidadãos do infinito e nada é nosso, porque somos de Deus e o seu Reino será, cedo ou tarde, a pátria definitiva dos justos.

Quem sabe possamos estabelecer, a partir de agora, iluminados pelo Espírito, relações mais solidárias, dispensando um tratamento mais acolhedor aos nossos irmãos e irmãs que, ao longo de aproximadamente dez meses, ficariam, com toda certeza, sensibilizados e felizes se pudessem reconhecer em todos nós a extensão de suas famílias, tendo-nos como amigos e nos vendo como irmãos seus. Teriam minimizadas suas carências, suas necessidades, suas aflições, seus sofrimentos e suas dores. Isso sem esquecer o quanto poderíamos aprender sobre a vasta experiência daqueles que trazem consigo um pouco de suas raízes, costumes e tradições, de sua religiosidade e, sobretudo, a imensa riqueza da alma humana, tal como afirma Carl Gustav Jung, pai da psicologia analítica: "Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana". Seríamos uns para os outros, portadores do anúncio e testemunhas do amor e da presença libertadora daqu’Ele que deseja ser para todos Caminho, Verdade e Vida: Nosso Senhor Jesus Cristo.

Padre Amauri Ferreira.

Paróquia Imaculada Conceição de Guararapes
Diocese de Araçatuba/SP
 

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"Pe Amauri, como sempre o Senhor é grande, diz tudo aquilo que precisa ser dito sobre qualquer assunto, nos faz ficarmos orgulhosas de pertencer a sua Paróquia, e nos dá uma enorme segurança de podermos contar com seus conselhos e direção espiritual, porque é muito sábio. Que deus o cubra de bençaos e o faça ter muita saude para podermos ter o privilégio de contarmos com sua amizade, e também com seus ensinamentos, o Senhor é um grande mestre pra todos nós seus paroquianos. Deus seja louvado." - Maria Helena e Cristina Grosso

"Pe. Amauri, li o seu texto "Acolher" e fiquei muito satisfeita em perceber nas suas palavras a sua sensibilidade com relação aos irmãos mais sofridos. Que o Espírito Santo esteja sempre a soprar os seus melhores sentimentos" Aurea Ramos Araujo - Campina Grande (PB).

"Aproveitamos para parabenizá-los pela iniciativa de divulgar através da Pascom de sua Paróquia o referido artigo, e também parabenizar o Pe Amauri pela sensibilidade pastoral e referido trabalho voltado para a Pastoral do Migrante. Por tudo isso Deus seja louvado! Fraternal abraço" - Rômerson de Souza Almeida - PASCOM - Diocese de Lins

"Como sempre, iluminado sob a luz do espírito santo, amauri consegue através de seus abençoados artigos, ir na essência da vida e no chamado de jesus cristo para a salvação. Parabéns caro amigo, nós aqui amamos muito você, sem demagogia e sim de coração. Que deus te conserve sempre assim." - Mendes

"Eu como catequista me sinto agradecida a Deus por me dar a oportunidade de acolher essas crianças migrantes, pois elas trazem com elas a simplicidade e a alegria na alma. Isso para mim serve como lição de vida. adorei o artigo - Um abraço de sua irmã Lucinha Almeida Teixeira"

"Pe. Amauri belo texto, que as palavras do santo evangelho,se convertam em atitudes, em ação. Só assim, agiremos em relação ao próximo que chamamos de "irmão"...acolhendo-os, respeitando e amando" - Alessandra C. Araujo Rodrigues

" Padre Amauri quero parabeniza -lo pelo belíssimo artigo que nos fez pensar e refletir. Se somos cristãos verdadeiros devemos acolher ao próximo sem distinção e com AMOR" - Maria Socorro de Oliveira

"Padre Amauri quero comentar e parabenizá-lo por tão lindas palavras... Tocaram meu coração, pois precisamos mudar nossa visão diante dos irmão migrantes, acolhê-los em nossa comunidade. Obrigada de coração, senti-me tocada e parei para refletir em algo que nunca havia feito...obrigada" - Elaine Melanin

"Padre Amauri parabéns pela sua iniciativa de acolher esses nossos irmãos todos os anos e, seguindo seu exemplo, somos chamados a recebê-los com grande carinho" - Maria Luiza Orpinelli

"Pe. Amauri! Lindo artigo!! Adorei! Vale muito refletir todo conteúdo. Realmente: "como é bom ser bem acolhido", melhor ainda saber acolher do jeito que nosso coração manda e a alma pede. Que o Espírito de Deus nos encoraja, nos fortaleça para que possamos ser com esses nossos irmãos migrantes que estão chegando a presença terna, carinhosa, amiga em tudo que eles precisarem, mesmo porque estão longe de tudo e de todos. Façamos a nossa parte servindo-os no que for preciso. Que todos eles sejam de verdade "MUITO BENVINDOS! Grande abraço!" - Cleuza S. Braga

"Uma ótima mensagem que nos faz pensar e refletir e também nos convida e mudar de atitude e sermos mais acolhedores com nossos irmãos migrantes que estão aqui apenas para buscar o sustento de suas famílias." - Lucas Bernardes

"Olá padre, já estava com saudades do senhor!!! Adorei o artigo. Temos que alertar! Silênciar nos faz iguais ou piores que os algozes, pois penso que quando sabemos, nossa responsabilidade é almentada e multiplicada! Obrigado querido! Que Deus te muna de forças para alertar, acordar e polinizar o bem" - Conceição Prates

"Querido amigo, padre Amauri, DEUS tem colocado em minha vida os filhos destes migrantes, alunos que recebemos todos os anos nas EMEBS. Como profissional e, muito mais, como pessoa, tenho crescido com eles, pois trazem consigo uma cultura regional deliciosa de se experimentar. Que DEUS me dê a graça de acolhê-los, e muito mais o privilégio de ser acolhida por eles. Um abraço!" - Alessandra(Bê)

 

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