Jesus fez as contas certinho

(Por: Frei Ludovico Garmus, Ofm)

Os milagres de Jesus não servem apenas para serem admirados ou para provarem sua divindade. Se assim fosse, os adversários de Jesus, que presenciaram os milagres deveriam ter acreditado nele. E isso não aconteceu. Outros milagres foram feitos somente porque já havia fé em Jesus. Ele, por exemplo, não pôde fazer nenhum milagre em Nazaré porque seus conterrâneos não conseguiram acreditar no “filho de Maria”.

Os milagres devem ser contemplados, refletidos, meditados. Os próprios evangelistas já fazem isso quando contam milagres. Não se contentam em registrar fotograficamente os possíveis acontecimentos. Com esse pressuposto vamos, pois, refletir no milagre da “multiplicação dos pães” e Mc 6,30-44. Antes desta cena Jesus tinha enviado os apóstolos em missão (Mc 6,7-13). Ele partiram e começaram a convidar o povo à conversão; expulsavam os demônios, ungiam os enfermos com óleo e os curavam.

A primeira experiência missionária dos apóstolos deve ter sido excitante. Ao voltar, eles contaram a Jesus, com entusiasmo, “tudo o que tinham feito e ensinado”. Jesus, vendo os discípulos cansados, quis retirar-se, a sós, com eles. De fato, Marcos chega a dizer que era tanta gente que vinha a Jesus que “não tinham tempo nem para comer”. Com o intuito de dar um descanso aos apóstolos Jesus se retira com eles de barco. Mas o povo percebe para onde se dirigia e chega lá a pé, antes de Jesus. Ao ver a multidão, Jesus fica com pena “porque eram como ovelhas sem pastor”. E põe-se a ensiná-los longamente. O dia já ia chegando ao fim. Os discípulos, então, aconselham Jesus a despedir o povo para que pudesse ir aos povoados, a fim de “comprar alguma coisa para comer”. Jesus, porém, não concorda e diz: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Mas os apóstolos eram bons economistas! Entre eles estava Levi (Mateus), que fora coletor de impostos. Ele sabia fazer os cálculos. Judas, que era o caixa, deve ter mostrado as poucas moedas que tinham na bolsa comum. Lá se ia todo o dinheiro que ajuntaram com as esmolas! “Vamos, então, gastar duzentas moedas de prata para comprar pão e dar-lhes de comer? “- exclamam eles. Mas Jesus também fez os cálculos. Os números não batiam! A lógica da fé é diferente da lógica dos números. E Jesus mandou ver quantos pães eles tinham. E eles encontraram, além de cinco pães, ainda dois peixes. Jesus, então, mandou o povo sentar-se em grupos de cinquenta e de cem. Tomou os cinco pães e os dois peixes, rezou a bênção, dividiu-os e mandou que os discípulos os distribuíssem à multidão. O resultado foi maravilhoso: Todos comeram e ficaram fartos. E no fim encheram ainda doze cestos cheios de pedaços que sobraram.

Fato parecido é contado no Segundo Livro dos Reis: Eliseu tinha um grupo de cinqüenta discípulos com ele. Um dia receberam de esmola 20 pães de cevada. A comunidade era pobre e muitas vezes passavam fome. Aqueles pães vieram em boa hora. Só que não estava prevista a visita de outro grupo de cinquenta discípulos de Eliseu. Quando eles vieram, Eliseu mandou servir os pães aos visitantes. Mas o discípulo, que sabia fazer a contas, achou que não dava. E respondeu: “Como vou oferecer isso para cem pessoas?” O profeta, porém, insistiu: “Oferece os pães às pessoas, para que comam!” E, em nome de Deus, garantiu: “Eles comerão e ainda deixarão sobras”. De fato, assim aconteceu (cf. 2Rs 4,42-44).

Realmente, a lógica da prudência humana não bate com a lógica da fé.

Caro leitor, querida leitora. Você percebeu que até nas Bíblias o título dado ao trecho é “multiplicação dos pães?” Será que não deveria ser “milagre da divisão dos pães?” É claro que Jesus, como Filho de Deus, podia multiplicar os pães quantas vezes quisesse. Mas ele o fez apenas duas vezes, segundo os evangelhos. Podia até mesmo transformar pedras em pão, como sugeriu o demônio na tentação. Mas não o fez. Por isso, precisamos aprofundar o sentido deste milagre.

Faça uma experiência: Quando você quiser penetrar no sentido do milagre da multiplicação dos pães pergunte aos ouvintes, sejam crianças, adolescentes, jovens ou adultos, qual foi a primeira conta que aprenderam a fazer na escola. A resposta será, sem dúvida, esta: “A conta de mais”. E depois? Vão responder: “A conta de menos”. E depois? A resposta será: “A conta de vezes”. A conta mais difícil de a criança aprender é a conta de dividir...

Na vida prática é a mesma coisa. Aprendemos com facilidade a somar. Somar bens, amontoar propriedades, dinheiro, riquezas. Muita gente sente um prazer em multiplicar o seu capital, às vezes de modo fantástico, especulativo. Os mais bem sucedidos na conta de somar são admirados e servem de modelo. Infelizmente a conta de somar não é fruto apenas do esforço no trabalho, da inteligência, mas do roubo, da exploração. A soma e a multiplicação é o resultado não poucas vezes da subtração injusta do fruto do trabalho alheio. Há muita criança grande e adulta, que sabe subtrair muito bem. Basta lembrar os roubos e desfalques do dinheiro público, os rombos nas contas do INSS, as falências fraudulentas de bancos que acabam sendo pagas com o dinheiro do povo. O dinheiro das aposentadorias acumuladas pelos nossos parlamentares faz muita falta para a multidão de idosos, que devem contentar-se com o salário mínimo.

A conta de dividir, todos nós sabemos, é a mais difícil. Um economista famoso dizia que não é possível dividir a pobreza. Primeiro é necessário somar, fazer crescer o bolo, para depois dividir. O bolo cresceu muito, o PIB duplicou várias vezes. Mas a divisão, a partilha mais justa dos bens não se fez. Pelo contrário, a parte do bolo que era dos mais ricos ficou mais gorda, enquanto a parcela do bolo destinada à imensa maioria de pobres emagreceu.

A lógica de Jesus é diferente. É a lógica da misericórdia, da compaixão, da solidariedade com os mais pobres, da primazia da dignidade da vida humana. Jesus não seria aprovado hoje como economista. Mas ele nos lembra algo muito simples: A multiplicação se faz também pela divisão. Jesus fez as contas direitinho! Propôs para os discípulos a conta mais difícil, a conta de dividir. Mas para chegar a isso, fez a conta de menos: subtraiu os cinco pães e os dois peixes dos discípulos. Tirou dos que tinham para dividir com os que não tinham. O resultado foi a maravilhosa multiplicação. Todos comeram. Não faltou nada para ninguém. Por fim, Jesus mandou fazer a conta que todo mundo acha mais fácil e gosta de fazer: A conta de mais; mandou recolher os pedaços que sobraram e os discípulos somaram doze cestos cheios.

Quando se trata de dividir os bens deste mundo, destinados por Deus para a vida de todos, quando se propõe repartir, de modo mais justo, o bolo das riquezas resultante do trabalho de todos, o egoísmo dos ricos sempre levanta a objeção: “Não vai dar para todos. Isso é muito pouco para tanta gente. Primeiro é preciso fazer crescer o bolo”. Esquecem, porém, que o bolo já está mal dividido. Com esta lógica egoísta, crescendo o bolo cresce também a parte dos ricos. É preciso dividir o bolo logo, tirando dos que têm mais e dando para os que têm menos ou nada têm. A miséria e a fome de tantos excluídos precisa ser resolvida logo. Amanhã poderá ser tarde.

Por isso que o profeta Eliseu mandou fazer: “Dá a esses homens para que comam, porque todos comerão e ainda sobrará”. E Jesus, por sua vez, nos ordena: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Nota: Este texto foi escrito há alguns anos e publicado no boletim “Irmão Sol”, da Família Franciscana. O texto foi digitado novamente, com algumas correções. Este modo de entender a “multiplicação dos pães” ganha uma atualidade ainda maior na sociedade atual, já convencida que deve mudar seu padrão de consumo, suas idéias de desenvolvimento, que deve ser sustentável. Temos que cuidar das “sobras” e evitar os desperdícios.

Frei Ludovico Garmus, Ofm
Professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano em Petrópolis/RJ


 
 
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