Estorvo para muitos, tesouro para outros

(Por: Pe. Amauri Ferreira)

 

Recentemente fui chamado a visitar um senhor já bem idoso e enfermo. Chegando ao local, enquanto estacionava o carro, bem em frente à casa, deparei-me com uma senhora que varria a calçada e perguntei: aqui mora o seu João? De maneira muito simpática, respondeu-me: “sim! O senhor é o padre?”. Respondi afirmativamente e ela, deixando a vassoura de lado, disse-me: “sou sua filha, vamos entrar! Só peço que não repare a bagunça! A casa vive desarrumada! Acabei de dar café a ele! O senhor não se incomoda de entrar pelos fundos?”. Sorrindo exclamei: é claro que não! E prossegui a conversa desejando saber como andava a saúde de seu pai. Com a mão fez o sinal de mais ou menos e logo mudou de assunto, dizendo: “o senhor está vendo esse quartinho? É aqui que ele guarda todas as suas tranqueiras! É um absurdo padre! Ninguém consegue entrar de tão cheio que tá! É bem verdade que ele conserva tudo arrumadinho e, se alguém mexer em alguma coisa ou tirar uma ferramenta do lugar, ele dá por falta e começa a reclamar dizendo: ‘alguém esteve aqui e, sem me avisar, levou isso ou aquilo’. Sou a filha mais velha, tenho sessenta e dois anos. Tem muita coisa aí dentro que ele usava quando eu ainda era criança. Aliás, algumas coisas são ainda do seu tempo de solteiro, quando ele nem sonhava conhecer minha falecida mãe”. Brincando, retruquei: então, isso não é um quartinho, mas sim, um tesouro!… - “Que nada padre, é só velharia mesmo! Por mim, já teria posto tudo no lixo e, as ferramentas, dado para alguém. Aqui em casa somos em seis. Todo mundo já implorou pra que ele se desfaça dessas bugigangas... Mas o velho é duro e, quando a gente fala alguma coisa, fica irritado e diz que bugiganga são as tralhas que temos! Tá doente, pra morrer, mas continua o mesmo turrão de sempre!”.

Ao entrar na casa, diminuindo o tom de voz, comentou: “ele está no quarto, deitado. Entre e fique à vontade! Se o senhor não se importa, vou acabar de varrer o quintal e depois fazer o almoço”. Por último, piscando os olhos e falando bem baixinho, pediu-me: “vê se o senhor consegue conversar com ele para que deixe de ser ‘cabeça dura’ e permita que a gente faça uma boa limpeza mandando aquelas quinquilharias pra bem longe”. Entrei no pequeno cômodo que possuía apenas uma velha cama, um criado-mudo e um guarda-roupas. Lá estava seu João que, num primeiro momento, com a voz baixa e rouca, perguntou meio intrigado: “quem é?”. Logo me apresentei: bom dia, seu João, eu sou o padre! Vim visitá-lo e saber como vai a sua saúde. Quero conversar um pouquinho e, depois, se for de sua vontade, rezar por alguns momentos em sua companhia. O senhor está bem disposto?… Ele abriu um largo sorriso e, com o rosto sereno, estendeu sua mão em direção à minha, dizendo: “que bom que o senhor veio, padre!”. E continuou: “disposto, disposto, um velho da minha idade nunca está, mas a gente vai levando! Uma hora melhor, outra pior! Da saúde até que melhorei. Semana passada, estive mal, pensei mesmo que ia ‘bater as botas’, mas, que nada, a gente vai levando até o dia em que Deus quiser nos quiser junto dEle, não é mesmo?”. Com certa dificuldade, sentou-se na cama, pegando a caneca que estava sobre o criado, dizendo-me: “o senhor quer um pouco de café? Deixei que o meu esfriasse um pouquinho, tava muito quente”. Agradeci a gentileza e me pus ao seu lado. Por muito tempo, fiquei ouvindo aquele homem que, embora com a voz cansada, falava muito, demonstrando que, talvez, o melhor remédio para a doença que o afligia, era ter um ouvido capaz de escutá-lo ou, quem sabe, um coração disposto a entendê-lo. Lá pelas tantas, lembrando daquilo que sua filha havia comentado, sutilmente, perguntei: eu soube que o senhor possui um quartinho onde guarda suas coisas com muito carinho, é verdade?… “Sim, eu tenho um quartinho aí nos fundos, mas o povo aqui de casa vive criando caso e me pedindo que eu acabe com ele…”. E o senhor o que acha? Indaguei… Seu João, sem hesitar, comentou: “o que tem lá não presta pra eles, mas pra mim é tudo o que sobrou desses anos todos de labuta!”. Apoiando-se no meu braço, foi, lentamente, ficando de pé ao mesmo tempo em que dizia: “vamos até lá padre? Quero mostrar o que tenho pro senhor”. Trêmulo, conseguiu calçar os chinelos que estavam no chão, aos pés da cama e, sem largar o meu braço, foi se arrastando em direção à cozinha cuja saída ficava bem em frente à porta do polêmico quartinho. Com muita dificuldade, conseguiu abri-lo. Percebi, a partir daí, um brilho em seus olhos que antes não havia. Até mesmo sua voz ficou mais forte e suas palavras mais cheias de vitalidade. E seu João, começando por um pequenino martelo, que, segundo ele, pertenceu ao seu pai durante dezenas de anos, foi mostrando, uma a uma, as ferramentas com as quais trabalhou e uma quantidade enorme de objetos por ele usados. Por trás de cada uma delas, havia uma história que, o velho homem, com riqueza de detalhes, fazia questão de contar-me, desde as mais comuns e identificadas facilmente por mim, até aquelas peças mais estranhas que ele, pacientemente, mostrava para que serviam e como funcionavam. Fui, aos poucos, entendendo não apenas a utilidade de todo aquele arsenal que guardava, mas a vida do próprio homem que, ao meu lado, resgatava em sua memória e em seu coração pedaços significativos de sua existência. Sem muito esforço, logo compreendi que todos aqueles instrumentos funcionavam como elos e o ajudavam a reconstituir a sua própria história. Enquanto exibia aquilo que ele mesmo, um pouco antes, definiu como ‘tudo o que sobrou de tantos anos de labuta’, lugares eram citados, nomes de muitas pessoas mencionados, fatos surpreendentes eram lembrados, momentos muito difíceis e dolorosos eram contados, situações alegres e muito engraçadas eram também recordadas. De vez em quando, ensaiava, diante das muitas lembranças, pequenas gargalhadas, imediatamente interrompidas por uma tosse intermitente. Seu rosto, porém, não escondia a felicidade que sentia em poder expor a rica experiência que viveu ao longo de seus oitenta e seis anos.

Depois de muito tempo, voltamos devagarzinho para o quarto, não sem ouvir o comentário desconcertante de sua filha que, já na cozinha, preparava o almoço: “pai, não fique amolando o padre! Ele tem muito que fazer! Não pode ficar manhã inteira ouvindo as lamúrias do senhor!”. Ele nada respondeu. E eu, disfarçando o constrangimento, preferi o silêncio. Chegando ao quarto, insisti para que ele permanecesse sentado, enquanto, juntos, começamos a fazer algumas orações. Em seguida, dele me despedi prometendo voltar para continuar ouvindo suas histórias, mostrando-me grato ao beijar sua fronte e apertar, carinhosamente, suas mãos, dizendo: ‘fique com Deus, seu João’!…

Ao passar pela cozinha me despedi de sua filha que, imediatamente, deixou de lado o que estava fazendo e acompanhou-me até o portão. No trajeto, indagou-me: “e aí padre, o que o senhor achou do velho? Da saúde de meu pai? O senhor acredita que ele ainda vai muito longe?”. Em poucas palavras, respondi: “quanto ao tempo que ainda lhe resta, somente Deus poderá determinar o dia de sua partida! Mas em relação ao seu estado de saúde, penso que ele poderá melhorar bem mais com a compreensão e o carinho de todos que estão, diariamente, ao seu lado”!

Retornei à casa paroquial e lá, por algum tempo, me pus a pensar não apenas no quartinho do seu João e do seu significado para ele, mas em tantos outros quartinhos, baús, malas e outros objetos que possuem a força de um sacramento para muitas pessoas, especialmente, para as mais idosas. Fiquei imaginando o tamanho da violência que praticamos por não respeitarmos e valorizarmos aquilo que para o outro tem um sentido profundo e chega a se confundir, ou, até mesmo, revelar a sua própria identidade enquanto pessoa. O que testemunhei na casa daquele homem tão íntegro, tão digno, nada tem a ver com o apego aos bens materiais, com o desejo egoísta de reter aquilo que não lhe é mais necessário, ou com a velha mania de armazenar coisas inúteis que só preenchem espaços que poderiam ser utilizados para outros fins. Não! A nossa pouca capacidade de discernir sobre o sentido das coisas e a nossa frágil espiritualidade, às vezes, nos levam a roubar o direito sagrado daquele nosso irmão ou irmã mais próximo. Daqueles que pertencem à nossa família, mas são, tantas vezes, violentados por nós mesmos, quando impedidos de preservarem aquilo que, ao longo da vida, adquiriu um encantamento e, por isso, carrega em si a extraordinária capacidade de fazê-los reviver e tornar presente momentos que, até mesmo o tempo, preguiçoso, já não deseja mais lembrar. Isso, também, acontece, quando, pela nossa incapacidade de ouvir, condenamos o outro a ter como única interlocutora sua própria solidão, nos divorciando, assim, do verdadeiro amor cristão pela ausência cruel de compaixão, de caridade, para com aqueles que seriam bem mais felizes se tivessem a oportunidade de dizerem o que pensam, o que sentem, o que querem, o que valorizam, o quanto ainda são capazes de amar e o quanto necessitam do nosso amor.

Pe. Amauri Ferreira



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