Discípulos de Jesus hoje (II)

(Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer)

No Novo Testamento, a questão do discipulado será compreendida a partir da pessoa de Jesus de Nazaré, visto e reconhecido como aquele que escuta a Deus e ao povo incessantemente, e carrega sobre seus ombros os sofrimentos e enfermidades de todos, a fim de lhes trazer o consolo e a libertação. Jesus é ao mesmo tempo a Palavra e o perfeito ouvinte.  É o Verbo de Deus voltado para a contemplação do rosto do Pai desde toda eternidade (Cf. Jo 1,1), e por sua Encarnação será o rosto do Pai voltado para a humanidade (Cf. Jo 1,18.) E àqueles que faz seus discípulos ensinará tudo o que escutou como perfeito discípulo e Filho amado do  Pai, para que sejam no mundo seu rosto, sua boca e seu corpo dado em oblação e serviço a todos.
Os elementos distintivos da identidade do discípulo cristão são, portanto, acima de tudo: a escuta à chamada de Jesus, a resposta crente e amorosa, a vinculação a uma comunidade de fé e a missão que a comunhão de vida e destino com Jesus vai levá-lo a desempenhar. A verificação da autenticidade do discipulado poderá ser percebida nos frutos que daí brotarão.
A relação de Jesus com seus discípulos começa com um chamado. Jesus convoca a quem quer nos mais diversos lugares: junto ao lago, no caminho, na montanha, em uma refeição; em diversas circunstâncias: na cotidianidade, no trabalho de pescador ou de coletor de impostos; e com uma proposta bem definida: estar com Ele e ser enviado a pregar. Enquanto, no judaísmo rabínico, eram os discípulos que escolhiam a escola e o mestre, aqui sucede algo novo. A novidade de Jesus é que Ele é quem chama por própria iniciativa e o faz com autoridade. “Não me escolheram vocês; fui eu quem os escolhi a vocês.” (Jo 15,16).
Este chamado ou vocação não é algo individualista e subjetivo, mas personalizado e comunitário. Totalizante, exige a vida inteira daquele ou aquela que escuta o chamado. Situa-se no interior do projeto de salvação, em um contexto eclesiástico concreto, e é algo exigente e vital. O chamado de Deus pela boca de Seu Filho Jesus se realiza seja de maneira direta, sensível e evidente como também, freqüentemente, através de mediações diversas, que convergem e se esclarecem na mediação comunitária e social. Pede ouvidos atentos e obedientes para ser escutado. E desde o primeiro momento, é um chamado a compartilhar a vida, o destino e a missão de Jesus.
O ponto de partida do discipulado cristão é, portanto, um encontro com a pessoa viva de Jesus, que pode dar-se em muitos lugares e circunstâncias: na escuta da Palavra, na mesa da comunhão, em situações vitais onde a mente e o coração humanos são postos em xeque e muito especialmente no rosto do outro. Em um segundo momento se dá a resposta, a qual compele o novo discípulo a desinstalar-se e a deixar ou relativizar tudo: família, bens, costumes, para seguir o Mestre. Este será para ele de agora em diante o único absoluto. A relação mestre-discípulo não se reduz a uma relação de ensino e aprendizagem intelectual; implica comunhão de vida e assimilação de um estilo e de um destino comuns. Nunca poderá pretender o discípulo ser mais que o mestre, mas “lhe bastará ser como seu Mestre” (Cf. Lc 6,40).
Essa mudança radical de vida está longe de ser uma atitude provisória, que dura enquanto o discípulo não chega a ser mestre. Do princípio ao fim não há mais que um Mestre, Cristo (Mt 10,24s; 23,8). Por isso, a vinculação dos discípulos a seu mestre é imensamente mais estreita e íntima que a de outros mestres. Jesus chama os discípulos “para que estejam com ele” (Mc 3, 14), participando de seu caminho errante, de sua carência de domicílio e inclusive de seu perigoso destino. Trata-se de uma comunhão total, que carrega em si a força e o conteúdo de uma confissão de fé e de vida em Jesus como Messias. Confessar isto com a boca e a vida poderá levar o discípulo até o final do testemunho, ou seja, ao martírio.
A resposta do discípulo, portanto, não corresponde a um saber intelectual, mas é sua vida mesma, dada e oferecida para que outros tenham vida. Ela se dá em um itinerário de fé que parte do chamado e do encontro com Jesus, passa pela conversão, segue em fidelidade até a cruz e dá testemunho da Ressurreição, a ponto de estar disposto a dar a vida por outros. Seguimento e testemunho, até o cume do martírio são, portanto, duas dimensões fundamentais do discipulado. Implica  dar vida, dando a vida.

Maria Clara Lucchetti Bingemer.
Tteóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.

 

 


 
 
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