Da saudade à esperança

(Por Pe. Amauri Ferreira)

Invariavelmente, todas as tardes, no alpendre de uma casa pequena e humilde, mas suficientemente acolhedora para comportar uma bela porção de amor, sentada numa velha cadeira de vime, esgarçada pelo uso, encontrávamos "Vó‟ Maria – era assim que, carinhosamente todos a tratavam. Com a saúde não muito boa e as pernas fragilizadas, quase não saía de casa, a não ser para ir às missas dominicais, visitar uma ou outra amiga doente, ao casamento de um dos netos, ao velório de pessoas muito conhecidas... De quando em quando, visitava os túmulos de seu marido, falecido há muitos anos, e de seu filho, que teve sua vida prematuramente ceifada num acidente. No "dia de finados‟, especialmente, era sagrado para ela levar, com suas mãos trêmulas, um punhado de flores que colhia cuidadosamente em seu próprio jardim.


Na candura de seu olhar e esbanjando simpatia, identificava e cumprimentava aqueles que passavam costumeiramente na calçada em frente; outras vezes permanecia entretida, tecendo lindos bordados que, apesar de suas vistas enfraquecidas, pareciam verdadeiras obras de arte; muitas vezes, se punha a conversar longamente com sua nora, com quem residia. Embora fosse frequente, sempre a surpreendia a chegada das netas, trazendo pelas mãos ou no colo bisnetos e tataranetos. Um largo sorriso iluminava o seu rosto esculpido pelas marcas da idade. A conversa ficava animada. Uma correria sem fim e um barulho ensurdecedor tomavam de assalto todos os recantos da casa. "Vó‟ Maria conversava com alguns, aconselhava a outros, afagava os mais pequeninos, relembrava fatos do passado, dava contas de sua saúde e, pacientemente, respondia às indagações que lhe eram feitas sobre sua vida. As horas avançavam rapidamente... A noite, como sempre, era a última visita a chegar... Quando sua presença era sentida, alguém sinalizava: "já é tarde! Vamos embora, porque está na hora da "Vó" dormir‟. Em poucos minutos, os barulhentos se despediam. Sua nora, então, se dirigia à sala de TV e „Vó‟ Maria arrastava seu corpo cansado sobre os chinelos de tecido, provocando um leve e compassado ruído no assoalho, em direção ao quarto. Antes de fechar a janela, contemplava, silenciosamente, um viçoso pé de primavera que havia no quintal ao lado, como se quisesse provar a si mesma: hoje, o inverno da solidão não logrou êxito ao estender seu mórbido manto sobre mim. Com certa dificuldade, fechava as vidraças e caminhava, lentamente, em busca do leito que a esperava de maneira acolhedora. Apalpando a cabeceira da cama, pegava o velho Terço e rezava nas contas envelhecidas pelos anos e gastas pela infinidade de vezes que acompanhou suas longas horas de preces. Era o final de mais um de seus dias. O travesseiro, seu confidente fiel, ouvia, então, mais uma vez, o anseio contido de "Vó‟ Maria: alçar voo nas asas do tempo até alcançar a beleza do reencontro.

Sim! "Vó‟ Maria, em seu incomparável fervor, intuía que o amor não se submete ao tempo, nem está preso e emoldurado pelo passado, como na antiga tela a óleo que em sua sala estampava a „natureza morta‟. A espera se fazia a doce companheira e, ao seu lado, a preparava para abandonar-se plenamente nos braços de Deus. Esse desejo de voltar à Casa paterna não a angustiava, nem a entristecia. Pelo contrário, alimentava a sua vontade de rever a muitos, em especial, o seu filho e o seu inseparável companheiro na fecunda história de amor da qual brotaram tantos frutos. Em seu coração residia a certeza de que esses, na companhia de Deus, estariam, por certo, enternecidos e transfigurados de alegria, à sua espera, para fazê-la sentir a ternura do Divino e levá-la a participar, como criança, da feliz e encantadora ciranda da eternidade.

Possuidora de uma espiritualidade que a fazia discernir e acatar os desígnios do Pai, possuía a clareza necessária e a lucidez indispensável para compreender a importância da missão que lhe restava concluir no itinerário a ela confiado na condição humana. Sabiamente, sem deixar de valorizar e sorrir para o sol e para os seus, para o mundo e para os outros, percebia a estreita comunhão entre um lado e outro do tempo, entre um lado e outro da margem banhada e ungida pela mesma "Água viva". Impregnada pela fé, sabia da união indissolúvel entre chegada-permanência-volta e vislumbrava, então, no horizonte da existência, a aurora que traria consigo não mais o sol e sua claridade, e sim o Senhor do sol e Sua luz inesgotável. Então, "Vó‟ Maria veria realizada a velha oração que, ao lado de tantos, sempre dirigiu ao Pai Celeste: "Dai-nos, Senhor, a graça de ir ao seu encontro para que, após a caminhada desta vida, estejamos, um dia, reunidos com nossos irmãos e irmãs, onde todas as lágrimas serão enxugadas, onde não haverá sofrimento e dor!"

Esse inviolável segredo de "Vó‟ Maria, até então conhecido apenas por Deus que sempre a ouviu em suas súplicas e por seu discreto e confiável confidente, o travesseiro, se deixou revelar dias depois de sua partida para a "Casa do Pai‟. Sua neta mais velha, encarregada de partilhar seus poucos pertences com as pessoas mais próximas, encontrou, dentro da Bíblia lida e meditada por ela vida inteira, uma pequena oração escrita de próprio punho numa folha de caderno já quase fragmentada, que assim dizia: "Senhor, imploro a tua misericórdia no momento de minha partida! Não deixe que o povo aqui de casa fique chorando pelos cantos e reclamando a minha falta. Apesar de todos os momentos difíceis que vivi, sempre me senti muito amada e amei, também, a todos! Senhor, minha vida por aqui depende da Tua vontade e sinto que meus dias estão se esgotando! Essa sensação não me deixa triste, mas feliz e tranquila, pois sei que estou indo ao Teu encontro! Senhor, peço que abençoe e proteja a cada um dos que ficarem. Quanto a mim, se for do teu agrado, permite que eu reveja o „meu velho‟ que, há tantos anos, tenho uma vontade enorme de reencontrar, e o meu filho querido, que tão cedo me deixou para estar em Tua companhia! Senhor, me coloco em Tuas mãos e confio no teu imenso amor... Me dá, Senhor, uma „boa hora‟!... Sinto que estou pronta!... Obrigada por tudo!... Amém!...".

Anos se passaram... Mas a pessoa de "Vó‟ Maria e os exemplos por ela deixados continuam presentes em nosso coração e docemente acalentados em nossa memória. Como um relicário que se abre, revelando-nos a preciosidade que abriga em seu interior, muitas vezes nos surpreendemos contemplando, ainda hoje, o seu rosto terno e refletindo sobre o seu jeito simples e generoso de ser.

Talvez, tenha nos faltado um pouquinho mais de sabedoria para entrevermos, naquele punhado de singelas flores que "Vó‟ Maria segurava em suas trêmulas mãos, nas longas preces que fazia, silenciosamente, diante dos túmulos, o que representava o "dia de finados‟. Talvez pudéssemos ter aprendido com ela, o significado mais profundo dessa data. Perceberíamos, com certeza, que aquelas flores não eram comuns; tinham pétalas tão belas quanto imperceptíveis aos nossos olhos. Não estavam ali, trazidas por ela para reverenciar apenas um amor que se perdeu em algum momento do passado e que agora, bucolicamente, atendia pelo nome de saudade. Aquelas flores revelavam bem mais. Falavam de um amor que ainda estava por vir e para o qual ela castamente se guardava. Esse amor, para ela, estava sendo vigorosamente gestado no útero do tempo e já se dava a conhecer pelo nome de esperança.

E foi nas asas do tempo, ternamente amparada pela esperança, que ela voou bem alto, muito alto, alto o bastante para contemplar o mistério da vida e seu triunfo no seio do mais puro e infinito Amor.


Pe. Amauri Ferreira


PS.: Na pessoa de "Vó‟ Maria, expressamos todo o nosso carinho e gratidão àqueles amados irmãos e irmãs que fizeram (e ainda fazem) parte da nossa história e que nos deram a imensa alegria de levarem consigo um pedacinho de nós para a eternidade. A esses, queremos reafirmar a nossa fé de peregrinos que caminham como imenso rebanho conduzido pelo Bom Pastor, aquele que se manifestou a Marta e se manifesta a cada um de nós que nele confia, dizendo: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá, jamais" (Jo 11,25s).

 
 

Há tempos nao conseguia sentar pra ler os artigos do site. Acho que Deus me tocou hoje pois ontem, se minha avó fosse viva, estaria aniversariando. Me bateu uma saudade enorme! Esse texto foi como um toque de Deus. Na medida em que ia lendo pude viajar no tempo e pois sentia que o texto falava de minha avó - uma das pessoas mais importantes de minha vida e que amei e amo muito. Obrigada Amauri e que Deus continue a te iluminar para que possa sempre nos ajudar a entender as coisas que vivemos no nosso dia-a-dia e fazer delas um degrau ao nosso encontro com Deus" Maria Cristina A. Antonello

"Esse texto veio para mim neste dia em boa hora, pois hoje senti muita saudade de minha vó e meu pai,e vi minha vó neste texto,pois seus gestos eram exatamente assim,mas sei que um dia nos encontraremos na casa do PAI,POIS QUEM NELE cre não morrerá jamais" - Lucinha

"O padre Amauri é dotado de tanta santidade e sabedoria, que não só as homilias como os textos que ele escreve, são fontes de inspiração e alívio para as almas". Alessandra Silva Camargo

"p.aumari, lendo esta historia viajo no tempo...como era bom, ouvir as suas histórias...saudades..... que DEUS o ilumine sempre" Claudia Fávaro

"Pe.Amauri, suas palavras vão muito além de tocar nossos coraçoes, tenha certeza que chega até nosso espiríto; Este texto me fez viajar pelo passado de minha vida e chorei de emoção" Mirian Dias de Medeiros Sugano

"Depoimentos como esse, nos faz crescer espiritualmente, valorizar a vida e tudo que dela faz parte. Só assim podemos sentir a presença daquele que é a própria esperança Jesus Cristo". Irani Gomes Augusto

 

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