Criação: ação e paixão

(Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer)

A palavra criadora de Deus é, na Bíblia, elemento constitutivo da natureza na sua origem e atividade. E o cosmos, ou mundo criado, é fonte de sua revelação. É Deus que faz existir, dirá a Escritura. É Ele que chama as coisas de onde não são para que sejam. E o faz por sua palavra. Deus diz e aquilo é feito, do nada.

Deus cria, porém, colocando ordem no criado. Sua palavra estrutura o caos. E dialoga com a criatura humana com imenso respeito. Nesse criar no tempo, ''no princípio'', o relato bíblico não sonha em opor à eternidade de Deus a eternidade do mundo criado. Somente Deus é princípio e começo de tudo que existe e o mundo vem depois. Esse ''começo'', essa ''origem sem origem'' que só encontra sua fonte no mistério inefável que Jesus Cristo chamou de Pai é incompreensível sem um ''fim''. Mas esse fim, sem o qual o mundo perderia seu dinamismo, nos é radicalmente desconhecido. Esse desconhecimento nos impede de buscá-lo entre os fenômenos deste mundo e mesmo nas diversas ciências.

O esforço que vem fazendo a teologia cristã, nos últimos tempos, para debruçar-se sobre a problemática da ecologia e da relação do ser humano com a totalidade da Criação denota uma tomada de consciência. O que está em jogo na questão ecológica é muito mais que um novo tema a ser refletido e trabalhado. Está em jogo o futuro mesmo das relações homemnatureza- Deus, ou seja, o futuro da vida sobre a Terra e do próprio conceito de Deus que é central para o cristianismo: Deus Pai, autor da vida, criador e salvador.

Resgatar a relação harmônica entre ser humano e cosmos exorciza a suspeita de uma concepção de humanidade equivocadamente individualista, aliada a um determinismo econômico e tecnológico onipotentes; a visão do homem separado da natureza, vendo nesta uma inimiga a ser conquistada e destruída impunemente em nome de um equivocado progresso. O risco disso é banir da vida a noção tão presente para os antigos de ver o cosmos como uma epifania, ou seja, como a manifestação de um mistério, que pede reverência e respeito para quem dele se aproxima.

Contemplar o mistério do cosmos, porém, não é distração ética, feita apenas de lazer e tranquilidade estéticas, mas despertar da preocupação ética primeira, que consiste em dar ou restituir ao homem e à mulher despossuídos e espoliados o cosmos que é seu lugar. E essa restituição se dá sob a forma da matéria à qual o ser humano tem um direito assegurado pelo próprio Deus. Toma, então, a forma da ''devolução'' do pão ao faminto, do teto ao desabrigado, da água ao sedento etc., não sendo isso nada mais que restituir um pedaço do cosmos àquele ou àquela que dele foi desprovido. Esse gesto ético restituidor é, dentro da lógica cristã, o gesto redentor e salvador primeiro e fundamental.

Lugar da ética e do agir moral, a criação é no entanto também lugar do patético, do padecido, da vulnerabilidade afetada. Se algo há a restituir, esse algo é sintoma de perda, de carência, de sofrimento pela necessidade agredida. E essa perda inscreve, necessariamente no cosmos a marca do pathos . A utilização desordenada dos recursos da natureza faz sofrer tanto ao ser humano como à própria natureza, conclamando portanto à solidariedade, à partilha, à reconciliação.

Lugar de experiência da paternidade divina, o cosmos é então não apenas interpelação ética, mas também receptividade que prova e é provada, espaço de paixão e compaixão .

Maria Clara Lucchetti Bingemer.
Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.

 

 


 
 
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