Anistia póstuma

(Por: Maria Clara Luchetti Bingemer)

 

Existe homenagem póstuma, publicação póstuma, e outras coisas póstumas. Existem, também, casos de punição póstuma, quando alguém recebe uma penalidade por algo que disse ou escreveu ou fez vários anos depois de morto. Mas neste caso, trata-se de anistia. Ou seja, foi perdoado e declarado não imputável pela lei por algo ilegal que se declara que fez no tempo em que era vivo.

Segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, anistia em sentido amplo significa esquecimento, perdão no sentido mais abrangente do termo. Juridicamente, “stricu sensu”, constitui um ato do poder público que declara impuníveis delitos praticados até determinada data por motivos políticos ou penais, ao mesmo tempo em que anula condenações e suspende diligências persecutórias.
Betinho, ou como diz a mídia, o sociólogo Herbert de Souza, foi anistiado. Perdoaram-lhe todos os delitos cometidos em vida e devido a isso, receberá uma indenização financeira, da qual usufruirá sua viúva, Maria Nakano, que também foi anistiada. Os mais jovens se lembram de Betinho fazendo campanha contra a fome, defendendo os meninos de rua, enfim, abraçando as mais nobres causas que esse Brasil cometeu. De que deveria ser anistiado, então, o irmão do cartunista Henfil e do músico Chico Mário, que a voz de Elis Regina imortalizou na canção “O bêbado e a equilibrista”, declarando que o país inteiro sonhava com a sua volta do exílio? Amado era Betinho, por muitos e muitas. De que ou por quem necessitava ser anistiado?

Sua biografia traz a resposta. O mineiro Betinho estudou Sociologia e formou-se no ano de 1962, Foi membro da Ação Católica e amigo pessoal do grande filósofo jesuíta brasileiro Henrique Claudio de Lima Vaz. Durante o governo do presidente João Goulart assessorou o Ministério de Educação, sendo o chefe da assessoria do ministro Paulo de Tarso Santos. Desde aquela trincheira, defendeu as reformas de base, com especial ênfase na Reforma Agrária.

Coerentemente, mobilizou-se contra o golpe militar que mergulhou o Brasil nos anos de chumbo em 1964 desde a primeira hora. Perseguido de cerca pela repressão, teve que exilar-se no Chile em 1971, com vários outros brasileiros “trocados”por embaixadores seqüestrados. Ali, ao sul mais sulino da América, assessorou o presidente Salvador Allende até o golpe de Pinochet que o depôs e matou em 1973. Refugiando-se na embaixada panamenha conseguiu não engrossar as estatísticas de vítimas do truculento general chileno que passou à história como um dos mais cruéis ditadores que o continente já conheceu. A partir daí teve que morar fora do Brasil, no Canadá, no México.

Ao começar no Brasil a Campanha pela anistia aos exilados políticos, puxada e respaldada na beleza melódica e poética da canção de Joao Bosco e Aldir Blanc cantada por Elis Regina, Betinho liderou a fila dos desejados e esperados, “tanta gente que partiu num rabo de foguete”. Nesse momento, vivo e ativo, Betinho foi anistiado e em 1979 voltou a seu país.

Uma vez aqui, fundou com companheiros economistas o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE) e voltou a sua bandeira de antes: a justiça social. Participando ativamente da política, seu coração permanecia conectado às causas sociais que provocavam sofrimentos incontáveis em seu povo, mergulhado na miséria e na opressão.

Criou então, em iniciativa memorável, a Ação da Cidadania contra a Fome a miséria e a vida. Com comitês espalhados por todo o país, o movimento era liderado por Betinho desde a mídia, onde aparecia incontáveis vezes, com sua figura doce e idealista, emagrecida pela AIDS adquirida em uma transfusão de sangue para combater a hemofilia herdada da mãe e compartilhada com os irmãos.

A lembrança que dele me fica data do principio dos anos 90 quando, juntamente com outros professores universitários, organizamos no dia 12 de outubro, Festa de Nossa Senhora Aparecida, uma romaria de intelectuais ao santuário. A Campanha contra a fome estava no auge e queríamos que Betinho falasse na missa. Missão quase impossível que acabou vitoriosa devido à habilidade, à estatura moral, à santidade mesmo de Dom Luciano Mendes de Almeida, que conseguiu abrir um espaço na oração dos fiéis para que Betinho falasse.

Fiquei encarregada - juntamente com o comum amigo Luiz Alberto Gomez de Souza - de buscá-lo no carro que o trazia do Rio de Janeiro e acompanhá-lo até a basílica para que entrasse em segurança e se sentasse. Ao chegarmos diante do portão principal do santuário, vimos aquele mar de gente. E pensei comigo que ia ser difícil conseguir entrar.

Não me dei conta que o povo sabe reconhecer os seus e abrir-lhes passagem. Ao reconhecerem Betinho dentro do carro, todas as portas se abriam. As pessoas sorriam, beijavam sua mão, agradeciam-lhe, diziam-lhe palavras carinhosas. Chegamos rapidamente à entrada da Igreja e Betinho sentou-se entre os celebrantes.

Falou lindamente à basílica lotada de pessoas as mais diversas, das mais distintas proveniências e identidades. E sua mensagem calou fundo: a solidariedade é a melhor forma de oração.

Hoje, tantos anos depois de sua morte, leio a noticia desta anistia póstuma. Não tão póstuma, já que Betinho continua vivo em meio a este povo que tanto amou e ao qual deu o melhor de si, arriscando cargo, salário, profissão, carreira, reputação, domicilio, tudo. Se ele deve ser anistiado, tristes de nós que não necessitamos sê-lo. Talvez nosso compromisso seja tênue e instável. Não como o de Betinho que até hoje deixa frutos na vida do povo brasileiro.

Maria Clara Luchetti Bingemer
Professora do departamento de teologia da PUC-Rio

 


 
 
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