É preciso que Ele cresça e eu diminua

(Por Pe. Amauri Ferreira)

No mês de junho, mais precisamente no dia 24, a Igreja celebra a festa de São João Batista. Nascido numa pequena cidade localizada na região montanhosa da Judéia, ele foi crescendo e ficando forte de espírito e, depois, segundo o evangelho de São Lucas, viveu no deserto até o dia em que se manifestou a Israel. Foi nesse tempo, que Deus enviou a sua Palavra a João.

No Evangelho de São Mateus, o Precursor aparece pregando no deserto: “convertam-se porque o Reino dos céus está próximo” (Mt 3,2). Na sua pessoa se cumpria o que foi anunciado pelo profeta Isaías: “esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas!” (Mc 1,3). O texto registra, também, o assédio de habitantes de Jerusalém, de toda Judéia e de muitos outros lugares em torno do Jordão que procuravam João para confissão de seus próprios pecados e dele receberem o batismo. O capítulo 1,19ss do Evangelho de São João ressalta a preocupação das autoridades dos judeus que enviaram a Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: “quem é você? Elias? João disse: ‘não sou!’. E continuaram: ‘você é o profeta?. Ele respondeu: ‘não!’. Então indagaram: ‘quem é você? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram’”. Não satisfeitos com as explicações de João, insistiram: “então, porque é que você batiza, se não é o Messias, nem Elias e nem o profeta?”. João respondeu: “eu batizo com água, mas no meio de vocês existe alguém, que vocês não conhecem, o que vem depois de mim. Ele é quem batiza com o Espírito Santo. Eu não mereço nem sequer desamarrar a correia das sandálias d’Ele”.

Esse diálogo com os representantes dos fariseus se deu em Bethânia, onde João estava batizando. A narrativa dá contas de que, no dia seguinte, João viu Jesus que se aproximava dele e, então, exclamou: “eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29). Segundo Mateus, “Jesus foi da Galiléia para o Rio Jordão a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. Mas João procurava impedi-lo, dizendo: “sou eu quem deve ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. Jesus, porém, lhe respondeu: “por enquanto deixe com está, porque devemos cumprir toda a justiça!” (Mt 3,13-15).

Como vimos, todos os gestos de João Batista são marcados por um profundo sentimento de humildade. Ele possui a consciência plena de sua missão. Em momento algum se vê impelido pela tentação de autopromover-se. Cumpre exemplarmente a tarefa de testemunhar a presença do Filho Amado de Deus assumindo a nossa humanidade. Dentre tantas afirmações repletas de sabedoria proferidas por João, uma particularmente nos chama atenção. Seu conteúdo pode ser utilizado como referencial para todos nós cristãos que desejamos, hoje, aplainar os caminhos para a chegada do Senhor aos corações que ainda não O conhecem. Quando questionado por seus discípulos que, surpresos, souberam que um grande número de pessoas estava indo ao encontro de Jesus para dele receber o batismo, João, com muita serenidade, respondeu: “esta é a minha alegria, e ela é muito grande. É preciso que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,29b-30). Não é sem razão que assim Jesus se pronunciou sobre ele: “entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João” (Lc 7,28a).

Diante destas palavras que refletem o sentimento de João Batista – “É preciso que ele cresça e eu diminua” –, é possível imaginar como seria diferente o relacionamento humano, se todos alimentassem em seus corações o sentimento de humildade revelado na postura de João ao referir-se a Jesus. Se estivéssemos mais atentos à presença do Mestre em cada semelhante, procuraríamos extirpar todo e qualquer tipo de vaidade que tende a nos fazer pensar que somos melhores que outros. Eliminaríamos a prepotência, seríamos menos arrogantes e nos acharíamos menos donos e mais filhos da verdade. Perceberíamos, como o escritor Paulo Coelho, que “uma coisa é você achar que está no caminho certo, outra é achar que o seu caminho é o único”. Estaríamos, então, sempre mais dispostos a promover o outro e não a dominá-lo, a oprimi-lo, a marginalizá-lo. Seríamos impelidos pelo espírito profético a denunciar toda e qualquer forma de desigualdade que possa inviabilizar relações pautadas no direito e na justiça. Entenderíamos, então, que o agir profético não significa apenas predizer, mas, sobretudo, produzir o futuro. Reforçaríamos, hoje, a proposta que, outrora, João Batista ousou dirigir à multidão que, desnorteada, lhe perguntava: “‘o que devemos fazer?’ Ele respondia: ‘quem tiver duas túnicas dê uma a alguém que não tem. E quem tiver comida, faça a mesma coisa’”. Aos cobradores de impostos sugeriu: “não cobrem além da taxa estabelecida”. Também aos soldados recomendou: “não maltratem ninguém, não façam acusações falsas, e fiquem contentes com o salário de vocês” (Lc 3,10-14).   

A genuína humildade presente na pessoa de João revela o seu total despojamento e a sua insaciável vontade de dispor-se inteiramente à tarefa de preparar os caminhos para a chegada daqu’Ele que o Senhor ama e n’Ele se compraz. Essa humildade não pode e não deve ser confundida com passividade, omissão, ou submissão a qualquer outra força senão ao poder divino. Menos preocupado consigo mesmo e com as consequências de sua pregação, e mais empenhado na conversão de corações petrificados, João não se acovardou diante daqueles que se utilizavam do poder que possuíam para escandalizar e submeter os pequeninos: “repreendeu o governador Herodes, porque ele se casara com Herodíades, a mulher do irmão, e porque tinha feito muitas outras maldades” (Lc 3,19).

Pelos valores do Reino e por aqu’Ele que veio inaugurá-lo e que devia crescer à vista de todos, João mantém-se fiel, mesmo que para isso tenha, como aconteceu, a sua cabeça degolada e, com requintes de crueldade, servida numa bandeja, no macabro banquete dos poderosos.

Tendo João Batista como fonte de inspiração, assumamos nós a missão que nos foi confiada, envidando todos os esforços no sentido de desenvolver uma ação evangelizadora capaz de levar a uma quantidade enorme de irmãos e irmãs a presença libertadora de Jesus Cristo – Caminho, Verdade e Vida. Lembremos que o êxito de tal empreitada dependerá sempre do nosso reconhecimento de que “é preciso que ele cresça e eu diminua”.

Pe. Amauri Ferreira
Pároco da Paróquia Imaculada Conceição de Guararapes Diocese de Araçatuba

 

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